segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Aprendendo a ler o mundo [Resumo]


Resumo de texto por Niédja Araújo

CALLAI. H. C. Aprendendo a ler o mundo: a geografia nos anos iniciais do ensino fundamental. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66, p. 227-247, maio/ago. 2005.

A autora enfoca, inicialmente, o principal objeto de estudo do geógrafo: o espaço. Para tanto, traz algumas citações de Milton Santos e Paulo Freire. Em seguida remete a importância de se compreender o espaço e o território, a partir do ensino da geografia e da alfabetização, durante o ensino fundamental. Neste sentido, a autora considera que para exercitar a cidadania é preciso saber ler o mundo, ler o espaço, destacando a geografia como disciplina fundamental no componente curricular da escola, devendo ser devidamente explorada, desde o início do processo de alfabetização. Essa leitura vai além da leitura cartográfica, ou das palavras, trata-se de compreender as paisagens que refletem as realidades territoriais, sejam naturais ou sociais. A geografia, no ensino fundamental, tem o papel de fazer o aluno a pensar e ler o espaço vivido, tendo em vista que ele precisa saber olhar, observar, descrever e analisar a paisagem. Callai ressalta que a geografia tradicional, em geral, opera com questões desconexas, enumeração de dados geográficos, diferentemente da realidade complexa do espaço, do mundo da vida. Portanto, seria errôneo desconsiderar tal complexidade, sua dinamicidade, e tentar hierarquizá-la, em círculos concêntricos, pois o mundo possui uma série de informações condicionadas a fatores econômicos, culturais, dentre outros, num processo social que envolve diferentes números de indivíduos. A autora destaca que hierarquizar o espaço em níveis que são ampliados sucessivamente, contribui para a clareza de termos, de níveis de grandeza contribuindo para uma possibilidade de ensino e aprendizagem. Porém, ocorre o risco do aluno pensar isoladamente, fragmentando o espaço e de ignorar a necessidade de compreender o “eu” no mundo com a sua complexidade atual. Para Callai tanto a Geografia quanto a Pedagogia concordam que a aprendizagem é de natureza social, que acontece no espaço geográfico, a partir da interlocução dos sujeitos e das experiências adquiridas. Ela também parte do pressuposto que o indivíduo lê o mundo – espaço social – antes mesmo de ler a palavra; em outros termos, há uma alfabetização espacial que já nasce com a criança e se torna complexa ao longo das suas experiências vividas, aumentando a sua capacidade de reconhecimento e percepção do espaço, enquanto que a alfabetização linguística torna o indivíduo capaz de escrever e ler as palavras.  Estas representam significados sociais que quando interpretados inteligivelmente ajudam o indivíduo a compreender melhor o mundo. Sendo assim, ler o espaço significa ler, conjuntamente, as palavras e o mundo, tornando-se possível representar no pensamento o espaço em que si vive. Neste sentido a aprendizagem e a representação não se resumem apenas no escrever copiando ou olhar um produto cartográfico. É necessário torna-se compreensível que não há neutralidade e aleatoriedade nas projeções cartográficas, nas escolhas dos espaços representados em um mapa ou uma carta e que há limites e interesses que podem ser revelados ou omitidos. Quando a criança tem sua capacidade de representação e compreensão aumentada, ela é motivada a conhecer e entender o que acontece no seu entorno, além de tornar-se uma cidadã crítica. Para a autora “Um lugar é sempre cheio de história e expressa/mostra o resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas, os grupos e também das relações entre eles e a natureza” (CALLAI, 2005. p. 234), daí a importância da criança compreender o significado de saber ler o espaço, saber ler as informações contidas ao seu redor e no mundo. Quando o professor diagnostica, junto com os alunos, os problemas sociais locais, através da leitura e representação do espaço, desenvolve-se o avanço na investigação e compreensão dos “porquês” das coisas, efetivando assim a leitura do espaço, que deve ampliar-se para os diversos conteúdos da Geografia, abordando-se também as definições conceituais próprias da disciplina. Para a autora, durante o processo de alfabetização deve-se estimular a criança a ler o mundo da vida, partindo do seu espaço vivido - do lugar - pois este fornece informações que a criança pode reavaliar, como as heranças, e indagar sobre o presente e o futuro, aprendendo assim a estudar o espaço. Tendo em vista que não há regras para aprender a ler, lendo o espaço, torna-se necessário, desde a educação infantil, o estabelecimento de um diálogo contínuo, em comunidade, com as pessoas, com a vida cotidiana, enfim, com a natureza e a sociedade que geram e configuram o espaço. Neste sentido, é importante esclarecer para a criança, ainda na alfabetização, que a realidade do mundo atual é dinâmica, que a velocidade da informação supera qualquer distância e que os fenômenos se entrelaçam em níveis complexos. Para compreender o mundo é preciso ter um olhar espacial, ou seja, estudar e analisar o espaço, geograficamente, entendendo assim toda a complexidade dele. Portanto, é de extrema importância que durante a alfabetização, onde a criança aprende a ler e a escrever, ela também desenvolva o olhar espacial para, inclusive, perceber as coisas da organização espacial que não são reveladas. As paisagens mostram as características culturais e cores, odores, sons, dentre outros, dos objetos espaciais, sejam eles naturais ou artificiais; seria aquilo que a visão do espectador abrange, considerando-se também que a paisagem é repleta de historicidade. Esta revela a materialização do ocorrido, a dinamicidade das relações sociais que se tornam visíveis e perceptíveis. A paisagem é a matéria prima que fornece elementos que devem ser estudados e analisados para chegar-se ao resultado dos “porquês” das coisas, das explicações daquilo que ela representa. Paisagem e espaço são duas definições consagradas na geografia e são indispensáveis para ler-se o mundo, porém, definir a dimensão espacial do recorte que será analisado é uma questão de escala, resultante de opções e escolhas relacionadas aos objetivos do ensino, seja para pesquisar o lugar ou no lugar. A escala pode ser social, que traz uma dimensão histórica, ligada ao tempo e espaço de nossas vidas; pode ser escala da natureza que revela os fenômenos da própria natureza, pautando acontecimentos antrópicos que podem alterá-la rapidamente. De todo modo, é importante interligar os vários níveis de análise, de escala, para compreender a dimensão dos fenômenos, seja natural ou social, que podem estar próximos ou distantes. A autora questiona “Como desenvolver a curiosidade na criança para que ela possa avançar na sua leitura do mundo? (...) O fundamental é saber do que se pode partir, e se a curiosidade for exercida na sala de aula, as crianças mesmas podem definir o que estudar” (CALLAI, 2005. p. 240) e ressalta que ler o mundo a partir do lugar, é o grande desfio. Algumas alternativas seriam: estudar determinadas realidades, como reconhecimento do lugar, que pode ser da rua, da família, do bairro, ou da escola, ou do território, ou mesmo da cidade. As problemáticas a serem estudadas devem compreender a realidade do que acontece e existe no mundo, considerando-se as dimensões espaciais e temporais. Para analisar um território, é necessário trabalhar alguns conceitos próprios da geografia que são construídos ao longo do processo de análise, eles constituem a linguagem geográfica. Segundo a autora, “o conceito é uma abstração da realidade, formado a partir da realidade em si, a partir da compreensão do espaço concreto, de onde se extraem elementos para pensar o mundo” (CALLAI, 2005. p. 241).  Desse modo, é possível confrontar o lugar específico com outros lugares, a partir da observação, do processo de abstração, pensado na elaboração do que está sendo vivido. Para realizar a abstração é necessário o desenvolvimento de habilidades, instigadas desde o início do convívio escolar, que expressam a especificidade de “ler o espaço”. Porém, muitas crianças apresentam dificuldades para abstrair, já que as atividades escolares, talvez, não permitam a exercitação de habilidades que possibilitam aguçar tal abstração. É importante a clareza dos conceitos fundamentais da geografia, considerando a linguagem específica dessa ciência, a necessidade da alfabetização cartográfica e de conhecer-se o lugar vivido, sua história, sua cultura. Para a autora, a cultura se expressa no espaço por meio de marcas que configuram o espaço e que tem ligações com a possibilidade de os sujeitos concretos da sociedade, ou de um povo, possuírem uma identidade no sentido de pertencimento ao lugar, ou a um território. Daí a importância da criança aprender a “reconhecer os valores, as crenças, as tradições e investigar os significados que têm para as pessoas que ali vivem” (CALLAI, 2005. p.243). A alfabetização cartográfica também se faz necessária para ler o espaço, ela é básica para a aprendizagem da geografia e deve acontecer no início da escolaridade, ou em outro momento. Os mapas são representações gráficas de um determinado espaço; a partir deles o indivíduo pode ler o espaço, e se tiver a capacidade de desenvolver um mapa, também terá melhores condições para compreender, interpretar as informações contidas no produto cartográfico. A criança deve aprender, nos anos iniciais de escolarização, a representar o que existe no espaço de fato, como trajetos, percursos, plantas da sala de aula, da casa, dentre outras atividades. Logo, além de aprender a ler o espaço, a criança deve aprender a representá-lo, respeitando determinadas regras e conceitos. Isso significa a construção de um conhecimento para além da realidade, ou seja, desenvolver a criatividade e habilidades como: compreender escalas, legendas, orientação, lateralidade, distância, tamanho, dentre outras. O indivíduo também precisa desenvolver habilidades para a vida cotidiana como: observar, descrever, comparar, estabelecer relações e correlações, tirar conclusões e fazer síntese daquilo que configura o espaço. “Nossos alunos precisam aprender a fazer as análises geográficas. E conhecer o seu mundo, o lugar em que vivem, para poder compreender o que são os processos de exclusão social e a seletividade dos espaços” (CALLAI, 2005. p. 245). A geografia, portanto, tem papel fundamental, no processo de aprendizagem e de alfabetização para o aluno ser capaz de saber ler o mundo.       

Segue o Link do texto na íntegra: 
http://www.miniweb.com.br/educadores/artigos/pdf/ler_mundo.pdf  

Um comentário:

  1. Parabéns,sintetizou muito bem oque Callai vem trazendo em como ler o mundo da vida ........

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