Resumo de texto por
Niédja Araújo
CALLAI. H. C. Aprendendo a ler o mundo: a geografia
nos anos iniciais do ensino fundamental. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66,
p. 227-247, maio/ago. 2005.
A autora enfoca, inicialmente,
o principal objeto de estudo do geógrafo: o espaço. Para tanto, traz algumas
citações de Milton Santos e Paulo Freire. Em seguida remete a importância de se
compreender o espaço e o território, a partir do ensino da geografia e da
alfabetização, durante o ensino fundamental. Neste sentido, a autora considera
que para exercitar a cidadania é preciso saber ler o mundo, ler o espaço,
destacando a geografia como disciplina fundamental no componente curricular da
escola, devendo ser devidamente explorada, desde o início do processo de
alfabetização. Essa leitura vai além da leitura cartográfica, ou das palavras, trata-se
de compreender as paisagens que refletem as realidades territoriais, sejam
naturais ou sociais. A geografia, no ensino fundamental, tem o papel de fazer o
aluno a pensar e ler o espaço vivido, tendo em vista que ele precisa saber
olhar, observar, descrever e analisar a paisagem. Callai ressalta que a
geografia tradicional, em geral, opera com questões desconexas, enumeração de
dados geográficos, diferentemente da realidade complexa do espaço, do mundo da
vida. Portanto, seria errôneo desconsiderar tal complexidade, sua dinamicidade,
e tentar hierarquizá-la, em círculos concêntricos, pois o mundo possui uma
série de informações condicionadas a fatores econômicos, culturais, dentre
outros, num processo social que envolve diferentes números de indivíduos. A
autora destaca que hierarquizar o espaço em níveis que são ampliados
sucessivamente, contribui para a clareza de termos, de níveis de grandeza contribuindo
para uma possibilidade de ensino e aprendizagem. Porém, ocorre o risco do aluno
pensar isoladamente, fragmentando o espaço e de ignorar a necessidade de
compreender o “eu” no mundo com a sua complexidade atual. Para Callai tanto a
Geografia quanto a Pedagogia concordam que a aprendizagem é de natureza social,
que acontece no espaço geográfico, a partir da interlocução dos sujeitos e das
experiências adquiridas. Ela também parte do pressuposto que o indivíduo lê o
mundo – espaço social – antes mesmo de ler a palavra; em outros termos, há uma
alfabetização espacial que já nasce com a criança e se torna complexa ao longo
das suas experiências vividas, aumentando a sua capacidade de reconhecimento e
percepção do espaço, enquanto que a alfabetização linguística torna o indivíduo
capaz de escrever e ler as palavras. Estas representam significados sociais que
quando interpretados inteligivelmente ajudam o indivíduo a compreender melhor o
mundo. Sendo assim, ler o espaço significa ler, conjuntamente, as palavras e o
mundo, tornando-se possível representar no pensamento o espaço em que si vive.
Neste sentido a aprendizagem e a representação não se resumem apenas no
escrever copiando ou olhar um produto cartográfico. É necessário torna-se
compreensível que não há neutralidade e aleatoriedade nas projeções
cartográficas, nas escolhas dos espaços representados em um mapa ou uma carta e
que há limites e interesses que podem ser revelados ou omitidos. Quando a
criança tem sua capacidade de representação e compreensão aumentada, ela é
motivada a conhecer e entender o que acontece no seu entorno, além de tornar-se
uma cidadã crítica. Para a autora “Um lugar é sempre cheio de história e
expressa/mostra o resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas,
os grupos e também das relações entre eles e a natureza” (CALLAI, 2005. p. 234),
daí a importância da criança compreender o significado de saber ler o espaço,
saber ler as informações contidas ao seu redor e no mundo. Quando o professor
diagnostica, junto com os alunos, os problemas sociais locais, através da
leitura e representação do espaço, desenvolve-se o avanço na investigação e
compreensão dos “porquês” das coisas, efetivando assim a leitura do espaço, que
deve ampliar-se para os diversos conteúdos da Geografia, abordando-se também as
definições conceituais próprias da disciplina. Para a autora, durante o
processo de alfabetização deve-se estimular a criança a ler o mundo da vida,
partindo do seu espaço vivido - do lugar - pois este fornece informações que a
criança pode reavaliar, como as heranças, e indagar sobre o presente e o futuro,
aprendendo assim a estudar o espaço. Tendo em vista que não há regras para
aprender a ler, lendo o espaço, torna-se necessário, desde a educação infantil,
o estabelecimento de um diálogo contínuo, em comunidade, com as pessoas, com a
vida cotidiana, enfim, com a natureza e a sociedade que geram e configuram o
espaço. Neste sentido, é importante esclarecer para a criança, ainda na
alfabetização, que a realidade do mundo atual é dinâmica, que a velocidade da
informação supera qualquer distância e que os fenômenos se entrelaçam em níveis
complexos. Para compreender o mundo é preciso ter um olhar espacial, ou seja,
estudar e analisar o espaço, geograficamente, entendendo assim toda a
complexidade dele. Portanto, é de extrema importância que durante a alfabetização,
onde a criança aprende a ler e a escrever, ela também desenvolva o olhar
espacial para, inclusive, perceber as coisas da organização espacial que não
são reveladas. As paisagens mostram as características culturais e cores,
odores, sons, dentre outros, dos objetos espaciais, sejam eles naturais ou
artificiais; seria aquilo que a visão do espectador abrange, considerando-se também
que a paisagem é repleta de historicidade. Esta revela a materialização do
ocorrido, a dinamicidade das relações sociais que se tornam visíveis e
perceptíveis. A paisagem é a matéria prima que fornece elementos que devem ser
estudados e analisados para chegar-se ao resultado dos “porquês” das coisas,
das explicações daquilo que ela representa. Paisagem e espaço são duas
definições consagradas na geografia e são indispensáveis para ler-se o mundo,
porém, definir a dimensão espacial do recorte que será analisado é uma questão
de escala, resultante de opções e escolhas relacionadas aos objetivos do
ensino, seja para pesquisar o lugar ou no lugar. A escala pode ser social, que
traz uma dimensão histórica, ligada ao tempo e espaço de nossas vidas; pode ser
escala da natureza que revela os fenômenos da própria natureza, pautando acontecimentos
antrópicos que podem alterá-la rapidamente. De todo modo, é importante
interligar os vários níveis de análise, de escala, para compreender a dimensão
dos fenômenos, seja natural ou social, que podem estar próximos ou distantes. A
autora questiona “Como desenvolver a curiosidade na criança para que ela possa
avançar na sua leitura do mundo? (...) O fundamental é saber do que se pode
partir, e se a curiosidade for exercida na sala de aula, as crianças mesmas
podem definir o que estudar” (CALLAI, 2005. p. 240) e ressalta que ler o mundo
a partir do lugar, é o grande desfio. Algumas alternativas seriam: estudar
determinadas realidades, como reconhecimento do lugar, que pode ser da rua, da
família, do bairro, ou da escola, ou do território, ou mesmo da cidade. As
problemáticas a serem estudadas devem compreender a realidade do que acontece e
existe no mundo, considerando-se as dimensões espaciais e temporais. Para
analisar um território, é necessário trabalhar alguns conceitos próprios da
geografia que são construídos ao longo do processo de análise, eles constituem
a linguagem geográfica. Segundo a autora, “o conceito é uma abstração da
realidade, formado a partir da realidade em si, a partir da compreensão do
espaço concreto, de onde se extraem elementos para pensar o mundo” (CALLAI,
2005. p. 241). Desse modo, é possível
confrontar o lugar específico com outros lugares, a partir da observação, do
processo de abstração, pensado na elaboração do que está sendo vivido. Para
realizar a abstração é necessário o desenvolvimento de habilidades, instigadas
desde o início do convívio escolar, que expressam a especificidade de “ler o
espaço”. Porém, muitas crianças apresentam dificuldades para abstrair, já que
as atividades escolares, talvez, não permitam a exercitação de habilidades que
possibilitam aguçar tal abstração. É importante a clareza dos conceitos
fundamentais da geografia, considerando a linguagem específica dessa ciência, a
necessidade da alfabetização cartográfica e de conhecer-se o lugar vivido, sua
história, sua cultura. Para a autora, a cultura se expressa no espaço por meio
de marcas que configuram o espaço e que tem ligações com a possibilidade de os
sujeitos concretos da sociedade, ou de um povo, possuírem uma identidade no
sentido de pertencimento ao lugar, ou a um território. Daí a importância da
criança aprender a “reconhecer os valores, as crenças, as tradições e
investigar os significados que têm para as pessoas que ali vivem” (CALLAI,
2005. p.243). A alfabetização cartográfica também se faz necessária para ler o
espaço, ela é básica para a aprendizagem da geografia e deve acontecer no
início da escolaridade, ou em outro momento. Os mapas são representações
gráficas de um determinado espaço; a partir deles o indivíduo pode ler o espaço,
e se tiver a capacidade de desenvolver um mapa, também terá melhores condições
para compreender, interpretar as informações contidas no produto cartográfico.
A criança deve aprender, nos anos iniciais de escolarização, a representar o
que existe no espaço de fato, como trajetos, percursos, plantas da sala de
aula, da casa, dentre outras atividades. Logo, além de aprender a ler o espaço,
a criança deve aprender a representá-lo, respeitando determinadas regras e
conceitos. Isso significa a construção de um conhecimento para além da
realidade, ou seja, desenvolver a criatividade e habilidades como: compreender
escalas, legendas, orientação, lateralidade, distância, tamanho, dentre outras.
O indivíduo também precisa desenvolver habilidades para a vida cotidiana como:
observar, descrever, comparar, estabelecer relações e correlações, tirar
conclusões e fazer síntese daquilo que configura o espaço. “Nossos alunos
precisam aprender a fazer as análises geográficas. E conhecer o seu mundo, o
lugar em que vivem, para poder compreender o que são os processos de exclusão
social e a seletividade dos espaços” (CALLAI, 2005. p. 245). A geografia,
portanto, tem papel fundamental, no processo de aprendizagem e de alfabetização
para o aluno ser capaz de saber ler o mundo.
Segue o Link do texto na íntegra:
http://www.miniweb.com.br/educadores/artigos/pdf/ler_mundo.pdf
Segue o Link do texto na íntegra:
http://www.miniweb.com.br/educadores/artigos/pdf/ler_mundo.pdf
Parabéns,sintetizou muito bem oque Callai vem trazendo em como ler o mundo da vida ........
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