Fichamento 3
Cipriano Luckesi. Tendências pedagógicas na prática escolar. Pg1-18
A educação é a vida
presente, é a parte da própria experiência humana. Ela "é encarada como um
instrumento capaz de promover, sem contradição, o desenvolvimento econômico
pela qualificação da mão-de-obra, pela redistribuição da renda, pela maximização
da produção e, ao mesmo tempo, pelo desenvolvimento da ‘consciência política’ indispensável
à manutenção do Estado autoritário”. A escola renovada propõe um ensino que
valorize a auto-educação (o aluno como sujeito do conhecimento), a experiência
direta sobre o meio pela atividade; um ensino centrado no aluno e no grupo. Verificamos
que são três as tendências que interpretam o papel da educação na sociedade: educação
como redenção, educação como reprodução e educação como transformação da
sociedade. [...]
Genericamente, podemos dizer que a perspectiva redentora se traduz pelas
pedagogias liberais e a perspectiva transformadora pelas pedagogias
progressistas. Estas pedagogias permite a cada professor situar-se teoricamente
sobre suas opções, articulando-se e autodefinindo-se. O conjunto das
pedagogias está dividido em:
l. Pedagogia liberal, 1.1 tradicional, 1.2 renovada progressivista,
1.3 renovada não-diretiva, 1.4 tecnicista, 2. Pedagogia progressista, 2.1
libertadora, 2.2 libertária, 2.3 crítico-social dos conteúdos.
Liberal: forma de organização social baseada na propriedade
privada dos meios de produção, também denominada sociedade de classes.
[...] A pedagogia liberal sustenta a idéia de que a escola tem por função
preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as
aptidões individuais, por isso os indivíduos precisam aprender a se adaptar aos
valores e às normas vigentes na sociedade de classes através do desenvolvimento
da cultura individual. A ênfase no aspecto cultural esconde a realidade das
diferenças de classes, pois, embora difunda a idéia de igualdade de
oportunidades, não leva em conta a desigualdade de condições. Pg1-3
Tendência Liberal tradicional:
Papel da escola -
A atuação da escola consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para
assumir sua posição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, os
problemas sociais pertencem à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber
é o mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem. Conteúdo: As matérias de
estudo visam preparar o aluno para a vida, são determinadas pela sociedade e
ordenadas na legislação. Os conteúdos são separados da experiência do aluno e
das realidades sociais, valendo pelo valor intelectual, razão pela qual a
pedagogia tradicional é criticada como intelectualista e, às vezes, como
enciclopédica. Métodos: Métodos - Baseiam-se na exposição verbal da
matéria e/ou demonstração. Tanto a exposição quanto a análise são feitas pelo
professor, observados os seguintes passos: a) preparação do aluno b)
apresentação c) associação d) generalização e) aplicação. A ênfase nos
exercícios, na repetição de conceitos ou fórmulas na memorização visa
disciplinar a mente e formar hábitos. Relacionamento professor-aluno -
Predomina a autoridade do professor [...] Ele transmite o conteúdo na forma de
verdade a ser absorvida; em consequência, a disciplina imposta é o meio mais
eficaz para assegurar a atenção e o silêncio. Pressupostos de aprendizagem
- A ideia de que o ensino consiste na [...] capacidade de assimilação da
criança como idêntica à do adulto, apenas menos desenvolvida. Os programas,
então, devem ser dados numa progressão lógica, estabelecida pelo adulto, sem
levar em conta as características próprias de cada idade. A aprendizagem,
assim, é receptiva e mecânica, para o que se recorre frequentemente à coação.
[...] O esforço é, em geral, negativo (punição, notas baixas, apelos aos pais);
às vezes, é positivo (emulação, classificações). Manifestações na prática
escolar - A pedagogia liberal tradicional é viva e atuante em nossas
escolas. Na descrição apresentada aqui incluem-se as escolas religiosas ou
leigas que adotam uma orientação clássico-humanista ou uma orientação
humano-científica. Pg4
Tendência Liberal renovada ou progressivista:
Papel da escola -
A finalidade da escola é adequar as necessidades individuais ao meio social e,
para isso, ela deve se organizar de forma a retratar, o quanto possível, a
vida. [...] À escola cabe suprir as experiências que permitam ao aluno
educar-se, num processo ativo de construção e reconstrução do objeto, numa
interação entre estruturas cognitivas do indivíduo e estruturas do ambiente. Conteúdos
de ensino - os conteúdos de ensino são estabelecidos em função de
experiências que o sujeito vivencia frente a desafios cognitivos e situações
problemáticas. Trata-se de "aprender a aprender", ou seja, é mais
importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. Método
de ensino - A ideia de "aprender fazendo" está sempre presente.
Valorizam-se as tentativas experimentais, a pesquisa, a descoberta, o estudo do
meio natural e social, o método de solução de problemas. Na maioria delas, acentua-se
a importância do trabalho em grupo não apenas como técnica, mas como condição
básica do desenvolvimento mental. a) interesse pela experiência b) estimular
reflexão sobre o problema c) pesquisar a descoberta de soluções; d) soluções
provisórias com a ajuda discreta do professor; e) à prova com utilidade para
a vida. Relacionamento professor-aluno - o papel do professor é auxiliar
o desenvolvimento livre e espontâneo da criança; se intervém, é para dar forma
ao raciocínio dela. O aluno disciplinado é aquele que é solidário,
participante, respeitador das regras do grupo. Para garantia de harmonia é
indispensável um relacionamento positivo entre professores e alunos;
"vivência democrática" tal qual deve ser a vida em sociedade.
Pressupostos de aprendizagem - Aprender se torna uma atividade de
descoberta, é uma auto-aprendizagem, sendo o ambiente apenas o meio
estimulador. É retido o que se incorpora à atividade do aluno pela descoberta
pessoal; o que é incorporado passa a compor a estrutura cognitiva para ser
empregado em novas situações. A avaliação é fluida e tenta ser eficaz à medida
que os esforços e os êxitos são pronta e explicitamente reconhecidos pelo
professor. Manifestações na prática escolar - Os princípios da pedagogia
progressivista vêm sendo difundidos, em larga escala, nos cursos de
licenciatura, e muitos professores sofrem sua influência. Entretanto, sua
aplicação é reduzidíssima, não somente por falta de condições objetivas como
também porque se choca com uma prática pedagógica basicamente tradicional.
Pertencem, também, à tendência progressivista muitas das escolas denominadas
"experimentais", as "escolas comunitárias" e mais
remotamente (década de 60) a "escola secundária moderna", na versão
difundida por Lauro de Oliveira Lima. Pg 5 e 6.
Tendência Liberal Renovada Não-diretiva:
Papel da escola – ela
deve estar mais preocupada com os problemas psicológicos do que com os
pedagógicos ou sociais. Todo esforço está em estabelecer um clima favorável a
uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal ás
solicitações do ambiente. Rogers4 considera que o ensino é uma atividade
excessivamente valorizada; para ele os procedimentos didáticos, a competência
na matéria, as aulas, livros, tudo tem muito pouca importância, face ao
propósito de favorecer à pessoa um clima de autodesenvolvimento e realização
pessoal, o que implica estar bem consigo próprio e com seus semelhantes. O
resultado de uma boa educação é muito semelhante ao de uma boa terapia. Conteúdos
de ensino – a ênfase nos processos de desenvolvimento das relações e da
comunicação torna secundária a transmissão de conteúdos. Os processos de ensino
visam mais facilitar aos estudantes os meios para buscarem por si mesmos os
conhecimentos que, no entanto, são dispensáveis. Métodos de ensino - Quase
exclusivamente o esforço do professor em desenvolver um estilo próprio para
facilitar a aprendizagem dos alunos. Rogers explicita algumas das
características do professor "facilitador": aceitação da pessoa do
aluno, capacidade de ser confiável, receptivo e ter plena convicção na
capacidade de autodesenvolvimento do estudante. Sua função restringe-se a
ajudar o aluno a se organizar, utilizando técnicas de sensibilização onde os
sentimentos de cada um possam ser expostos, sem ameaças. Relacionamento
professor-aluno - propõe uma educação centrada no aluno, visando formar sua
personalidade através da vivência de experiências significativas que lhe
permitam desenvolver características inerentes à sua natureza. O professor é um
especialista em relações humanas, ao garantir o clima de relacionamento pessoal
e autêntico. "Ausentar-se" é a melhor forma de respeito e aceitação
plena do aluno. Toda intervenção é ameaçadora, inibidora da aprendizagem. Pressupostos
de aprendizagem - A motivação resulta do desejo de adequação pessoal na
busca da auto-realização; é, portanto um ato interno. O sujeito desenvolve o
sentimento de que é capaz de agir em termos de atingir suas metas pessoais,
isto é, desenvolve a valorização do "eu". A retenção se dá pela
relevância do aprendido em relação ao "eu", ou seja, o que não está
envolvido com o "eu" não é retido e nem transferido. Portanto, a
avaliação escolar perde inteiramente o sentido, privilegiando-se a
autoavaliação. Manifestações na prática escolar - Entre nós, o
inspirador da pedagogia não-diretiva é C. Rogers, na verdade mais psicólogo
clínico que educador. Suas ideias influenciam um número expressivo de
educadores e professores. Pg 6 e 7.
1.4 Tendência liberal
tecnicista
Papel da escola -
Num sistema social harmônico, orgânico e funcional, a escola funciona como
modeladora do comportamento humano, através de técnicas específicas. escola
atua, assim, no aperfeiçoamento da ordem social vigente (o sistema
capitalista), articulando-se diretamente com o sistema produtivo; para tanto,
emprega a ciência da mudança de comportamento, ou seja, a tecnologia
comportamental. Seu interesse imediato é o de produzir indivíduos
"competentes" para o mercado de trabalho, transmitindo, eficientemente,
informações precisas, objetivas e rápidas. Conteúdos de ensino - São as
informações, princípios científicos, leis etc. [...] O material instrucional
encontra-se sistematizado nos manuais, nos livros didáticos, nos módulos de
ensino, nos dispositivos audiovisuais etc. Métodos de ensino – [...] a
primeira tarefa do professor é modelar respostas apropriadas aos objetivos
instrucionais, a principal é conseguir o comportamento adequado pelo controle
do ensino; daí a importância da tecnologia educacional. A tecnologia educacional
é a "aplicação sistemática de princípios científicos comportamentais e
tecnológicos a problemas educacionais, em função de resultados efetivos,
utilizando uma metodologia e abordagem sistêmica abrangente". [...] O
essencial da tecnologia educacional é a programação por passos seqüenciais
empregada na instrução programada, nas técnicas de microensino, multimeios,
módulos etc. Relacionamento professor-aluno - O professor é apenas um
elo de ligação entre a verdade científica e o aluno, cabendo-lhe empregar o
sistema instrucional previsto. O aluno é um indivíduo responsivo, não participa
da elaboração do programa educacional [...]. Debates, discussões,
questionamentos são desnecessários, assim como pouco importam as relações
afetivas e pessoais dos sujeitos envolvidos no processo ensinoaprendizagem. Pressupostos
de aprendizagem – [...] o ensino é um processo de condicionamento através
do uso de reforçamento das respostas que se quer obter. Assim, os sistemas
instrucionais visam ao controle do comportamento individual face objetivos
preestabelecidos. Trata-se de um enfoque diretivo do ensino, centrado no
controle das condições que cercam o organismo que se comporta. O objetivo da
ciência pedagógica, a partir da psicologia, é o estudo científico do comportamento:
descobrir as leis naturais que presidem as reações físicas do organismo que
aprende, a fim de aumentar o controle das variáveis que o afetam. P. 7 e 8
2. Pedagogia progressista
[...] A pedagogia
progressista tem-se manifestado em três tendências: a libertadora, mais
conhecida como pedagogia de Paulo Freire; a libertária, que reúne os
defensores da autogestão pedagógica; a crítico-social dos conteúdos
que, diferentemente das anteriores, acentua a primazia dos conteúdos no seu
confronto com as realidades sociais. As versões libertadora e libertária têm em
comum o antiautoritarismo, a valorização da experiência vívida como base da
relação educativa e a idéia de autogestão pedagógica. Em função disso, dão mais
valor ao processo de aprendizagem grupal (participação em discussões,
assembléias, votações) do que aos conteúdos de ensino. Como decorrência, a
prática educativa somente faz sentido numa prática social junto ao povo, razão
pela qual preferem as modalidades de educação popular "não-formal".
2.1 Tendência progressista
libertadora
Papel da escola -
Não é próprio da pedagogia libertadora falar em ensino escolar, já que sua
marca é a atuação "não-formal". Ela questiona concretamente a
realidade das relações do homem com a natureza e com os outros homens, visando
a uma transformação - dai ser uma educação crítica10. Conteúdos de ensino
- Denominados “temas geradores", são extraídos da problematização da
prática de vida dos educandos. [...] O importante não é a transmissão de
conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma da relação com a
experiência vivida. [...]Métodos de ensino - "Para ser um ato de
conhecimento o processo de alfabetização de adultos demanda, entre educadores e
educandos, uma relação de autêntico diálogo; aquela em que os sujeitos do ato
de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a ser conhecido". Os
passos da aprendizagem - Codificação-decodificação, e problematização da
situação - permitirão aos educandos um esforço de compreensão do
"vivido", até chegar a um nível mais crítico de conhecimento e sua
realidade, sempre através da troca de experiência em torno da prática social.
Se nisso consiste o conteúdo do trabalho educativo, dispensam um programa
previamente estruturado, trabalhos escritos, aulas expositivas assim como
qualquer tipo de verificação direta da aprendizagem, formas essas próprias da
"educação bancária", portanto, domesticadoras. Entretanto admite-se a
avaliação da pratica vivenciada entre educador-educandos no processo de grupo
e, às vezes, a autoavaliação feita em termos dos compromissos assumidos com a
prática social.
Relacionamento
professor-aluno - No diálogo, como método básico, a relação é horizontal,
onde educador e educandos se posicionam como sujeitos do ato de conhecimento. O
critério de bom relacionamento é a "' total identificação com o povo, sem
o que a relação pedagógica perde consistência. Elimina-se, por pressuposto,
toda relação de autoridade, sob pena de esta inviabilizar o trabalho de
conscientização, de "aproximação de consciências". Pressupostos de
aprendizagem - A própria designação de "educação
problematizadora" como correlata de educação libertadora revela a força
motivadora da aprendizagem. A motivação se dá a partir da codificação de uma
situação-problema, da qual se toma distância para analisá-la criticamente.
"Esta análise envolve o exercício da abstração, através da qual procuramos
alcançar, por meio de representações da realidade concreta, a razão de ser dos
fatos".
Manifestações na prática
escolar - A pedagogia libertadora tem como inspirador e divulgador Paulo
Freire, que tem aplicado suas idéias pessoalmente em diversos países, primeiro
no Chile, depois na África. Entre nós, tem exercido uma influencia expressiva
nos movimentos populares e sindicatos e, praticamente, se confunde com a maior
parte das experiências do que se denomina "educação popular".
2.2 Tendência progressista
libertária
Papel da escola -
A pedagogia libertária espera que a escola exerça uma transformação na
personalidade dos alunos num sentido libertário e autogestionário. A escola
instituirá, com base na participação grupal, mecanismos institucionais de
mudança (assembléias, conselhos, eleições, reuniões, associações etc.), de tal
forma que o aluno, uma vez atuando nas instituições "externas", leve
para lá tudo o que aprendeu. Outra forma de atuação da pedagogia libertária,
correlata á primeira, é - aproveitando a margem de liberdade do sistema - criar
grupos de pessoas com princípios educativos autogestionários (associações,
grupos informais, escolas autogestionários). Há, portanto, um sentido
expressamente político, à medida que se afirma o indivíduo como produto do
social e que o desenvolvimento individual somente se realiza no coletivo. A
autogestão é, assim, o conteúdo e o método; resume tanto o objetivo pedagógico
quanto o político. Essa pedagogia, pretende ser uma forma de resistência contra
a burocracia como instrumento da ação dominadora do Estado. Conteúdos de
ensino - As matérias são colocadas à disposição do aluno, mas não são
exigidas. São um instrumento a mais, porque importante é o conhecimento que
resulta das experiências vividas pelo grupo, especialmente a vivência de
mecanismos de participação crítica. "Conhecimento" aqui não é a
investigação cognitiva do real, para extrair dele um sistema de representações
mentais, mas a descoberta de respostas as necessidades e às exigências da vida
social. Método de ensino - É na vivência grupal, na forma de autogestão,
que os alunos buscarão encontrar as bases mais satisfatórias de sua própria
"instituição", graças à sua própria iniciativa e sem qualquer forma
de poder. Trata-se de "colocar nas mãos dos alunos tudo o que for
possível: o conjunto da vida, as atividades e a organização do trabalho no
interior da escola". Os alunos têm liberdade de trabalhar ou não, ficando
o interesse pedagógico na dependência de suas necessidades ou das do grupo.
Relação professor-aluno - A pedagogia institucional visa "em primeiro
lugar, transformar a relação professor-aluno no sentido da não-diretividade,
isto é, considerar desde o início a ineficácia e a nocividade de todos os
métodos à base de obrigações e ameaças". Embora professor e aluno sejam
desiguais e diferentes, nada impede que o professor se ponha a serviço do
aluno, sem impor suas concepções e idéias, sem transformar o aluno em
“objeto". O professor é um orientador e um catalisador, ele se mistura ao
grupo para uma reflexão em comum. Pressupostos de aprendizagem - As
formas burocráticas das instituições existentes, por seu traço de
impessoalidade, comprometem o crescimento pessoal. A ênfase na aprendizagem
informal, via grupo, e a negação de toda forma de repressão visam favorecer o
desenvolvimento de pessoas mais livres. No mais, ao professor cabe a função de
"conselheiro" e, outras vezes, de instrutor-monitor à disposição do
grupo. Em nenhum momento esses papéis do professor se confundem com o de
"modelo", pois a pedagogia libertária recusa qualquer forma de poder
ou autoridade.A motivação está, portanto, no interesse em crescer dentro da vivência
grupal, pois supõe-se que o grupo devolva a cada um de seus membros a
satisfação de suas aspirações e necessidades. P. 9-13.
2.3 Tendência progressista
“crítico social dos conteúdos”
Papel da escola -
A difusão de conteúdos é a tarefa primordial. Não conteúdos abstratos, mas
vivos, concretos e, portanto, indissociáveis das realidades sociais. A
valorização da escola como instrumento de apropriação do saber é o melhor
serviço que se presta aos interesses populares, já que a própria escola pode
contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática. [...] Em
síntese, a atuação da escola consiste na preparação do aluno para, o mundo
adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio da
aquisição de conteúdos e da socialização, para uma participação organizada e
ativa na democratização da sociedade. Conteúdos de ensino - São os
conteúdos culturais universais que se constituíram em domínios de conhecimento
relativamente autônomos, incorporados pela humanidade, mas permanentemente reavaliados
face às realidades sociais. [...] Não basta que os conteúdos sejam apenas
ensinados, ainda que bem ensinados, é preciso que se liguem, de forma
indissociável, à sua significação humana e social. Métodos de ensino - A
questão dos métodos se subordina à dos conteúdos: se o objetivo é privilegiar
a aquisição do saber, e de um saber vinculado às realidades sociais, é preciso
que os métodos favoreçam a correspondência dos conteúdos com os interesses dos
alunos, e que estes possam reconhecer nos conteúdos o auxílio ao seu esforço
de compreensão da realidade (prática social). [...] Em outras palavras, uma
aula começa pela constatação da prática real, havendo, em seguida, a
consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos do conteúdo proposto,
na forma de um confronto entre a experiência e a explicação do professor. Vale
dizer: vai-se da ação à compreensão e da compreensão à ação, até a síntese, o
que não é outra coisa senão a unidade entre a teoria e a prática. Relação
professor-aluno – [...] O papel do adulto é insubstituível, mas acentua-se
também a participação do aluno no processo. Ou seja, o aluno, com sua
experiência imediata num contexto cultural, participa na busca da verdade, ao
confrontá-la com os conteúdos e modelos expressos pelo professor. Mas esse
esforço do professor em orientar, em abrir perspectivas a partir dos
conteúdos, implica um envolvimento com o estilo de vida dos alunos, tendo
consciência inclusive dos contrastes entre sua própria cultura e a do aluno.
Não se contentará, entretanto, em satisfazer apenas as necessidades e
carências; buscará despertar outras necessidades, acelerar e disciplinar os
métodos de estudo, exigir o esforço do aluno, propor conteúdos e modelos
compatíveis com suas experiências vividas, para que o aluno se mobilize para
uma participação ativa. Pressupostos de aprendizagem - Por um esforço
próprio, o aluno se reconhece nos conteúdos e modelos sociais apresentados pelo
professor; assim, pode ampliar sua própria experiência.O conhecimento novo se
apóia numa estrutura cognitiva já existente, ou o professor provê a estrutura
de que o aluno ainda não dispõe. O grau de envolvimento na aprendizagem dependa
tanto da prontidão e disposição do aluno, quanto do professor e do contexto da
sala de aula. [...] O professor precisa saber (compreender) o que os alunos
dizem ou fazem, o aluno precisa compreender o que o professor procura
dizer-lhes. A transferência da aprendizagem se dá a partir do momento da síntese, isto é, quando o aluno supera sua
visão parcial e confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora. [...]
Resulta com clareza que o trabalho escolar precisa ser avaliado, não como
julgamento definitivo e dogmático do professor, mas como uma comprovação para
o aluno de seu progresso em direção a noções mais sistematizadas. Manifestações
na prática escolar - O esforço de elaboração de uma pedagogia “dos
conteúdos” está em propor modelos de
ensino voltados para a interação conteúdos-realidades sociais; portanto,
visando avançar em termos de uma articulação do político e do pedagógico,
aquele como extensão deste, ou seja, a educação "a serviço da
transformação das relações de produção". Ainda que a curto prazo se espere
do professor maior conhecimento dos conteúdos de sua matéria e o domínio de formas
de transmissão, a fim de garantir maior competência técnica, sua contribuição
"será tanto mais eficaz quanto mais seja capaz de compreender os vínculos
de sua prática com a prática social global", tendo em vista [...] "a
democratização da sociedade brasileira, o atendimento aos interesses das
camadas populares, a transformação estrutural da sociedade brasileira"14.
[...] Por fim, situar o
ensino centrado no professor e o ensino centrado no aluno em extremos opostos é
quase negar a relação pedagógica porque não há um aluno, ou grupo de alunos,
aprendendo sozinho, nem um professor ensinando para as paredes. Há um
confronto do aluno entre sua cultura e a herança cultural da humanidade, entre
seu modo de viver e os modelos sociais desejáveis para um projeto novo de
sociedade. E há um professor que intervém, não para se opor aos desejos e
necessidades ou a liberdade e autonomia do aluno, mas para ajudá-lo a
ultrapassar suas necessidades e criar outras, para ganhar autonomia, para
ajudá-lo no seu esforço de distinguir a verdade do erro, para ajudá-lo a
compreender as realidades sociais e sua própria experiência. P 14 – 17.