quarta-feira, 28 de março de 2012


Fichamento 1

VIANA, Juvany. Ser professor é gostar do outro. In: PRETTO, Nelson De Luca; SERPA, Felippe. UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. Expressões de sabedoria: educação, vida e saberes : Mãe Stella de Oxóssi, Juvany Viana. Salvador (BA): EDUFBA, 2002. 95, [96-99]. Cap. 4, p. 73-95.

1)       “... Eu comecei a estudar com sete anos de idade. Na minha localidade, não existia colégio...” p.73.
2)       “... Meu pai, que queria que os filhos dele aprendessem, me trouxe para Salvador...” p.73
3)       “Morei em São Caetano, estudei no Cônsul até a sétima série. Daí, a minha mãe adoeceu, e eu tive que vir embora. Faltando um mês pra fazer um ano que meu pai morreu, minha mãe também morreu.” p.74.
4)       “... eu sou a mais velha, e meus irmãos estavam todos pequenos. Criei todos eles.” P.74.
5)       “Não tinha mais como sair pra estudar, porque já tinha filho e marido [...] Fui trabalhar na roça, e o tempo foi passando”. P.74
6)       “Quando eu estava com vinte e dois anos de idade, em 79, época de eleição, chegou lá no Iguape um rapaz que era vice-prefeito de Cachoeira, Seu Geraldo Simões. Nessa época, eu já tinha quatro anos ensinando como voluntária. Juntei duas mesas com aqueles bancos de tira e queria que aquelas crianças aprendessem, porque o meu instinto era ter um colégio no local.” P.74
7)      “[...] Geraldo [...] disse que, se ganhasse a eleição, iria me ajudar. Ele ganhou [...] chegou lá em casa e disse: "Negona, agora é sua vez!". [...] e disse que eu já podia considerar que eu estava trabalhando.” P.74
8)      ‘Matriculei sessenta meninos. Não tinha lugar pra eles sentarem [...] Fiz uma campanha para os pais: "Quero um banco de cada um!" E muitos fizeram bancos, arrumaram tábuas [...] p.74
9)      “Meu maior ideal era ter um prédio no local. Eu sonhava com essa escola! [...] mas eu ensinei o tempo todo dentro do meu salão” p.75
10)  “Pra encurtar mais essa conversa, eu já ensinei até em banco de pé de coco.” P.75
11)  “Quando eu soube que o colégio tinha direito a merenda, eu comecei a buscar por isso. Hoje, eu é quem faço a merenda no meu colégio [...] porque eu quero que tenha aula.” P.75
12)  “Meu maior sonho foi conseguir ensinar e... Consegui! [...] Hoje eu já me sinto feliz! [...] Sempre brinquei de roda com eles, sempre pulei corda, mas eles sabem que têm horário pra tudo, minha maior alegria é ter conseguido isso.” P.75
13)  “Eu não terminei de estudar. Professora leiga não tem o mesmo salário, mas a minha prioridade é que eu estou fazendo o meu trabalho [...] posso até não estar fazendo bem, porque eu não tenho o linguajar de faculdade, mas consigo labutar com eles.” P.75
14)  “ Às vezes, eu sou meio rígida, mas a maior parte deles, quando chega perto de mim, diz que eu sou doce.[...]” p.76
15)  “Agora eu vou contar a história do colégio. O prefeito começou a fazer [...] Mandou a metade do material. Eu [...] inventei de fazer uma casa grande pra mim lá na roça [...] comprei cinco mil blocos, não sei quantas caçambas de brita, comprei ferro e depois [...] mudei de ideia [...] e fui negociar com o prefeito.[...] Até hoje tem dívida dele lá [...]Usou os meus blocos [...] o importante é que fez o prédio. P.77
16)  “[...] eu tô ensinando nele, na maior alegria [...] tudo o que tem na cozinha é meu, mas eu ainda tô buscando a merenda.”  P.77
17)  “Felippe
- Juvany, eu tenho a informação de que você tem a sua filha... Como é que você divide o trabalho com ela na escola? ” P. 78
18)  “No ano passado, a minha menina ensinou a alfabetização”, pois, “[...] eu fiz o supletivo em Feira e agora tô tomando o curso Pró-Formação à distância. [...] esse ano eu não dei pelo seguinte: [...] alfabetização [...] eu sempre gostei e a minha filha não [...] Ela tem jeito de professora de terceira e quarta série, ela já se formou [...]” P.79
19)  “[...] eu, pra dar aula de Matemática... pego livro, leio e releio [...] estudar no candeeiro é difícil [...] como professora leiga... eu não quero que falem mal de mim [...]” p.78
20)  “ Eu já ensinei três vezes no dia: [...]primeira e segunda de manhã, terceira e quarta de tarde, e de noite [...] o Mobral”.  P.79
21)  “Felippe
- A gente sabe que você, como professora, usa muito as linguagens da arte para o desenvolvimento da criança. Você poderia falar um pouco sobre isso?” P.79
22)  “Juvany
- [...] eu coloquei na quarta série, na terceira [...] aula de dança, [...] capoeira. [...] É legal! Eles estão empolgados! Agora, eu comprei um rádio. Lá não tem energia. Só brincar de roda não dá! Pro rádio são seis baterias!!' Aí meu marido diz: "Pronto' Acabou o dinheiro do mês!". Minha menina diz que tem que ir pedir na prefeitura, mas eu ainda não fiz o pedido.” P.79
23) “Felippe
- Nesses vinte anos desse trabalho com as crianças, sem escola, porque a escola era a sua casa, né? Só de dois anos pra cá que você tem essa escola. Você usava muitas brincadeiras e trabalhos? Conte um pouco sobre isso.” P.79
24)  “Juvany
- Os alunos brincavam muito. Época de folclore? Eu me vestia de baiana. [...] vem o dia do índio [...] peço pra dramatizarem [...] e eles ficam empolgados.” P.80
25)  “Jorge
- [...] Eu fiquei curioso em relação ao material de trabalho: papel, lápis... de onde é que vem?”
26)   “Juvany
- [...] agora mesmo eu recebi os materiais, mas tem época que é o maior sacrifício. Às vezes, eu compro com meu dinheiro mesmo. [...] Mimeógrafo, por exemplo, eu sonhava com um. [...] minha irmã levou uma pessoa no Iguape, que [...] ficou hospedada lá [...] foi lá em casa, e me perguntou o que é que eu queria de presente. [...] Ela, assim que chegou em Salvador, comprou [...] e deu a minha irmã pra levar. P.81
27)  “Artur
- A senhora sempre fala da questão de ser professora leiga como se fosse uma deficiência. Eu vejo que é justamente o contrário, é até uma vantagem. Na escola, hoje, podem ter muitos técnicos pra ensinar as letras e os números, mas eles não conseguem fazer com que as pessoas sejam gente. Eu acho que esse é o grande desafio da educação. A senhora preferiu, frente ao abandono que existia, fazer história. Isso é de sobra e não de falta.” P.83
28)  “Juvany
- Mas [...] é você que tá falando isso aí agora. As outras pessoas não pensam igual, justamente por isso, as características são diferentes, o jeito de pensar, o jeito de olhar, de imaginar. Você acha que é ótimo, mas pessoas atrás dizem que não[...]” P.83
29)  “Carlos Alberto
- Eu vejo muito a indiferença do aluno frente à escola e ao professor. A senhora chama os seus alunos pelo nome, tem um vínculo muito, forte e isso é de um valor e de uma sabedoria imensuráveis, mais do que as letras e os números” P. 83
30)  “Juvany
- [...] Eu já tô acostumada a conversar com eles. [...] além dos meus dez filhos, eu crio mais quatro. As crianças, se pudessem, chegavam lá em casa e não queriam ir mais embora. [...] Eu peguei uma com um mês e vai fazer vinte e três anos agora [...] outra com um ano e seis meses e já tá com dezessete.[...] Estudaram todos comigo. Peguei um com seis anos de idade [...] já tá com vinte anos. [...] me chama de mãe e chama a mãe dele de Vera [...]” p.84
31)  “Alessandra
- Eu queria perguntar ainda sobre essa questão do professor leigo, como é que entra o Pró-Formação na sua vida?” p.85
32)  “Juvany
- [...]De seis em seis meses, vamos pra Santo Amaro, ficamos lá dez dias, levamos os módulos pra casa e, de quinze em quinze dias, tem reunião em Cachoeira. [...]É difícil, eu tô me batendo com Matemática [...] mas pra mim é uma satisfação, porque, eu vou conseguir [...] ser uma professora!” P.85
23)  “Felippe
- Você acha que quando você acabar esse Pró-Formação, a sua prática na escola vai mudar significativamente? Você vai ser outra, ou você vai continuar com esse mesmo processo?” P.86
33)  “Juvany
- [...] Eu já trabalhava assim com minhas crianças, agora  com incentivação tá sendo bem melhor.[...] Eu tenho que pegar o dicionário pra confirmar se é assim mesmo que escreve. O Pró-Formação tá me ajudando bastante, porque eu tô conseguindo aprender muito mais. O jeito que eu fazia, com a explicação, hoje eu já modifico pra melhor.” P.86
24)  “Nelson
- A senhora tá sempre dizendo que o Pró-Formação é à distância. Isso funciona? Será que dava pra fazer essas coisas também com as crianças à distância?” P.86
34)  “Juvany
- [...] eu já tô com a mente mais madura, [...] Pra eles é bem mais difícil. Se pra mim já tá sendo difícil, então... Como é que, de longe, eu vou passar brincadeiras?” P.87          
35)  “[...] Quando chega sem querer estudar, eu incentivo e tento botar na mente deles que, sem estudo, não se consegue nada.” P.88
36)  “Eu paro pra escutar eles, depois eu continuo. Faço perguntas, depois eles respondem, aí eu continuo [...] Eu sempre me preocupo com isso, para eles aprenderem, se desenvolverem e serem comunicativos.” P.90
37)  “Nelson
- A senhora hoje está dando uma aula em uma escola que forma professor. O que é ser um bom professor? Aqui todo mundo ou é ou será professor. Nessa sua aula de hoje, como a senhora diria o que é ser um bom professor?”  p.90
38)  “Juvany
- Eu acho que ser um bom professor é ser um bom amigo, ter uma boa compreensão, saber amar, ter uma frequência de carinho. [...] eu me considero uma mãe dos meus alunos a partir do momento em que eles chegam na sala. Ser um bom professor é ser compreensivo, é saber amar. [...] nunca tive diferença com os alunos, todos pra mim são iguais[...]” P.90
39)  “Bruno
- [...] A gente tem um trabalho em São Francisco do Paraguaçu. Uma das queixas da professora é que as crianças chegam muito violentas na escola, mordendo professor. Eu gostaria de saber de você: na sua sala existe esse tipo de coisa? P.91
40)  “Juvany
- Pra dizer a verdade, em vinte e seis anos que eu ensino, eu nunca tive um aluno que me ofendesse. Na hora de falar grosso com eles, eu falava e nunca tive nenhum que eu maltratasse e nem que me maltratasse [...]” p.91
41)  “[...] Eu digo às minhas filhas que a gente tem que ensinar por amor. Tudo que a gente faz na vida tem que ser com amor [...]”p.93
42)  [...] qualquer que seja o nível do processo educativo [...] a atividade educativa é essencialmente uma relação entre pessoas! [...] A grande aula que Juvany deu aqui é mostrar que nas condições de trabalho que ela tem, ela encara o processo educativo como uma relação entre pessoas e, [...] entre pessoas deve estar o amor.” P.94

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