O fotógrafo Julian Germain viajou ao redor do mundo registrando salas de aula e suas atmosferas em cada cidade que visitou. Comparar a realidade da educação de um país de terceiro mundo com a outro de primeiro através de fotos é o que dá profundidade ao projeto Classroom Portraits.
Vale a pena conferir, muito legal!
Blog voltado para a socialização dos conteúdos da disciplina Didática e práxis pedagógica I ministrada pela professora Alessandra Assis - UFBA/FACED
sábado, 20 de outubro de 2012
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Aprendendo a ler o mundo [Resumo]
Resumo de texto por
Niédja Araújo
CALLAI. H. C. Aprendendo a ler o mundo: a geografia
nos anos iniciais do ensino fundamental. Cad. Cedes, Campinas, vol. 25, n. 66,
p. 227-247, maio/ago. 2005.
A autora enfoca, inicialmente,
o principal objeto de estudo do geógrafo: o espaço. Para tanto, traz algumas
citações de Milton Santos e Paulo Freire. Em seguida remete a importância de se
compreender o espaço e o território, a partir do ensino da geografia e da
alfabetização, durante o ensino fundamental. Neste sentido, a autora considera
que para exercitar a cidadania é preciso saber ler o mundo, ler o espaço,
destacando a geografia como disciplina fundamental no componente curricular da
escola, devendo ser devidamente explorada, desde o início do processo de
alfabetização. Essa leitura vai além da leitura cartográfica, ou das palavras, trata-se
de compreender as paisagens que refletem as realidades territoriais, sejam
naturais ou sociais. A geografia, no ensino fundamental, tem o papel de fazer o
aluno a pensar e ler o espaço vivido, tendo em vista que ele precisa saber
olhar, observar, descrever e analisar a paisagem. Callai ressalta que a
geografia tradicional, em geral, opera com questões desconexas, enumeração de
dados geográficos, diferentemente da realidade complexa do espaço, do mundo da
vida. Portanto, seria errôneo desconsiderar tal complexidade, sua dinamicidade,
e tentar hierarquizá-la, em círculos concêntricos, pois o mundo possui uma
série de informações condicionadas a fatores econômicos, culturais, dentre
outros, num processo social que envolve diferentes números de indivíduos. A
autora destaca que hierarquizar o espaço em níveis que são ampliados
sucessivamente, contribui para a clareza de termos, de níveis de grandeza contribuindo
para uma possibilidade de ensino e aprendizagem. Porém, ocorre o risco do aluno
pensar isoladamente, fragmentando o espaço e de ignorar a necessidade de
compreender o “eu” no mundo com a sua complexidade atual. Para Callai tanto a
Geografia quanto a Pedagogia concordam que a aprendizagem é de natureza social,
que acontece no espaço geográfico, a partir da interlocução dos sujeitos e das
experiências adquiridas. Ela também parte do pressuposto que o indivíduo lê o
mundo – espaço social – antes mesmo de ler a palavra; em outros termos, há uma
alfabetização espacial que já nasce com a criança e se torna complexa ao longo
das suas experiências vividas, aumentando a sua capacidade de reconhecimento e
percepção do espaço, enquanto que a alfabetização linguística torna o indivíduo
capaz de escrever e ler as palavras. Estas representam significados sociais que
quando interpretados inteligivelmente ajudam o indivíduo a compreender melhor o
mundo. Sendo assim, ler o espaço significa ler, conjuntamente, as palavras e o
mundo, tornando-se possível representar no pensamento o espaço em que si vive.
Neste sentido a aprendizagem e a representação não se resumem apenas no
escrever copiando ou olhar um produto cartográfico. É necessário torna-se
compreensível que não há neutralidade e aleatoriedade nas projeções
cartográficas, nas escolhas dos espaços representados em um mapa ou uma carta e
que há limites e interesses que podem ser revelados ou omitidos. Quando a
criança tem sua capacidade de representação e compreensão aumentada, ela é
motivada a conhecer e entender o que acontece no seu entorno, além de tornar-se
uma cidadã crítica. Para a autora “Um lugar é sempre cheio de história e
expressa/mostra o resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas,
os grupos e também das relações entre eles e a natureza” (CALLAI, 2005. p. 234),
daí a importância da criança compreender o significado de saber ler o espaço,
saber ler as informações contidas ao seu redor e no mundo. Quando o professor
diagnostica, junto com os alunos, os problemas sociais locais, através da
leitura e representação do espaço, desenvolve-se o avanço na investigação e
compreensão dos “porquês” das coisas, efetivando assim a leitura do espaço, que
deve ampliar-se para os diversos conteúdos da Geografia, abordando-se também as
definições conceituais próprias da disciplina. Para a autora, durante o
processo de alfabetização deve-se estimular a criança a ler o mundo da vida,
partindo do seu espaço vivido - do lugar - pois este fornece informações que a
criança pode reavaliar, como as heranças, e indagar sobre o presente e o futuro,
aprendendo assim a estudar o espaço. Tendo em vista que não há regras para
aprender a ler, lendo o espaço, torna-se necessário, desde a educação infantil,
o estabelecimento de um diálogo contínuo, em comunidade, com as pessoas, com a
vida cotidiana, enfim, com a natureza e a sociedade que geram e configuram o
espaço. Neste sentido, é importante esclarecer para a criança, ainda na
alfabetização, que a realidade do mundo atual é dinâmica, que a velocidade da
informação supera qualquer distância e que os fenômenos se entrelaçam em níveis
complexos. Para compreender o mundo é preciso ter um olhar espacial, ou seja,
estudar e analisar o espaço, geograficamente, entendendo assim toda a
complexidade dele. Portanto, é de extrema importância que durante a alfabetização,
onde a criança aprende a ler e a escrever, ela também desenvolva o olhar
espacial para, inclusive, perceber as coisas da organização espacial que não
são reveladas. As paisagens mostram as características culturais e cores,
odores, sons, dentre outros, dos objetos espaciais, sejam eles naturais ou
artificiais; seria aquilo que a visão do espectador abrange, considerando-se também
que a paisagem é repleta de historicidade. Esta revela a materialização do
ocorrido, a dinamicidade das relações sociais que se tornam visíveis e
perceptíveis. A paisagem é a matéria prima que fornece elementos que devem ser
estudados e analisados para chegar-se ao resultado dos “porquês” das coisas,
das explicações daquilo que ela representa. Paisagem e espaço são duas
definições consagradas na geografia e são indispensáveis para ler-se o mundo,
porém, definir a dimensão espacial do recorte que será analisado é uma questão
de escala, resultante de opções e escolhas relacionadas aos objetivos do
ensino, seja para pesquisar o lugar ou no lugar. A escala pode ser social, que
traz uma dimensão histórica, ligada ao tempo e espaço de nossas vidas; pode ser
escala da natureza que revela os fenômenos da própria natureza, pautando acontecimentos
antrópicos que podem alterá-la rapidamente. De todo modo, é importante
interligar os vários níveis de análise, de escala, para compreender a dimensão
dos fenômenos, seja natural ou social, que podem estar próximos ou distantes. A
autora questiona “Como desenvolver a curiosidade na criança para que ela possa
avançar na sua leitura do mundo? (...) O fundamental é saber do que se pode
partir, e se a curiosidade for exercida na sala de aula, as crianças mesmas
podem definir o que estudar” (CALLAI, 2005. p. 240) e ressalta que ler o mundo
a partir do lugar, é o grande desfio. Algumas alternativas seriam: estudar
determinadas realidades, como reconhecimento do lugar, que pode ser da rua, da
família, do bairro, ou da escola, ou do território, ou mesmo da cidade. As
problemáticas a serem estudadas devem compreender a realidade do que acontece e
existe no mundo, considerando-se as dimensões espaciais e temporais. Para
analisar um território, é necessário trabalhar alguns conceitos próprios da
geografia que são construídos ao longo do processo de análise, eles constituem
a linguagem geográfica. Segundo a autora, “o conceito é uma abstração da
realidade, formado a partir da realidade em si, a partir da compreensão do
espaço concreto, de onde se extraem elementos para pensar o mundo” (CALLAI,
2005. p. 241). Desse modo, é possível
confrontar o lugar específico com outros lugares, a partir da observação, do
processo de abstração, pensado na elaboração do que está sendo vivido. Para
realizar a abstração é necessário o desenvolvimento de habilidades, instigadas
desde o início do convívio escolar, que expressam a especificidade de “ler o
espaço”. Porém, muitas crianças apresentam dificuldades para abstrair, já que
as atividades escolares, talvez, não permitam a exercitação de habilidades que
possibilitam aguçar tal abstração. É importante a clareza dos conceitos
fundamentais da geografia, considerando a linguagem específica dessa ciência, a
necessidade da alfabetização cartográfica e de conhecer-se o lugar vivido, sua
história, sua cultura. Para a autora, a cultura se expressa no espaço por meio
de marcas que configuram o espaço e que tem ligações com a possibilidade de os
sujeitos concretos da sociedade, ou de um povo, possuírem uma identidade no
sentido de pertencimento ao lugar, ou a um território. Daí a importância da
criança aprender a “reconhecer os valores, as crenças, as tradições e
investigar os significados que têm para as pessoas que ali vivem” (CALLAI,
2005. p.243). A alfabetização cartográfica também se faz necessária para ler o
espaço, ela é básica para a aprendizagem da geografia e deve acontecer no
início da escolaridade, ou em outro momento. Os mapas são representações
gráficas de um determinado espaço; a partir deles o indivíduo pode ler o espaço,
e se tiver a capacidade de desenvolver um mapa, também terá melhores condições
para compreender, interpretar as informações contidas no produto cartográfico.
A criança deve aprender, nos anos iniciais de escolarização, a representar o
que existe no espaço de fato, como trajetos, percursos, plantas da sala de
aula, da casa, dentre outras atividades. Logo, além de aprender a ler o espaço,
a criança deve aprender a representá-lo, respeitando determinadas regras e
conceitos. Isso significa a construção de um conhecimento para além da
realidade, ou seja, desenvolver a criatividade e habilidades como: compreender
escalas, legendas, orientação, lateralidade, distância, tamanho, dentre outras.
O indivíduo também precisa desenvolver habilidades para a vida cotidiana como:
observar, descrever, comparar, estabelecer relações e correlações, tirar
conclusões e fazer síntese daquilo que configura o espaço. “Nossos alunos
precisam aprender a fazer as análises geográficas. E conhecer o seu mundo, o
lugar em que vivem, para poder compreender o que são os processos de exclusão
social e a seletividade dos espaços” (CALLAI, 2005. p. 245). A geografia,
portanto, tem papel fundamental, no processo de aprendizagem e de alfabetização
para o aluno ser capaz de saber ler o mundo.
Segue o Link do texto na íntegra:
http://www.miniweb.com.br/educadores/artigos/pdf/ler_mundo.pdf
Segue o Link do texto na íntegra:
http://www.miniweb.com.br/educadores/artigos/pdf/ler_mundo.pdf
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Fichamento 3
Cipriano Luckesi. Tendências pedagógicas na prática escolar. Pg1-18
A educação é a vida
presente, é a parte da própria experiência humana. Ela "é encarada como um
instrumento capaz de promover, sem contradição, o desenvolvimento econômico
pela qualificação da mão-de-obra, pela redistribuição da renda, pela maximização
da produção e, ao mesmo tempo, pelo desenvolvimento da ‘consciência política’ indispensável
à manutenção do Estado autoritário”. A escola renovada propõe um ensino que
valorize a auto-educação (o aluno como sujeito do conhecimento), a experiência
direta sobre o meio pela atividade; um ensino centrado no aluno e no grupo. Verificamos
que são três as tendências que interpretam o papel da educação na sociedade: educação
como redenção, educação como reprodução e educação como transformação da
sociedade. [...]
Genericamente, podemos dizer que a perspectiva redentora se traduz pelas
pedagogias liberais e a perspectiva transformadora pelas pedagogias
progressistas. Estas pedagogias permite a cada professor situar-se teoricamente
sobre suas opções, articulando-se e autodefinindo-se. O conjunto das
pedagogias está dividido em:
l. Pedagogia liberal, 1.1 tradicional, 1.2 renovada progressivista,
1.3 renovada não-diretiva, 1.4 tecnicista, 2. Pedagogia progressista, 2.1
libertadora, 2.2 libertária, 2.3 crítico-social dos conteúdos.
Liberal: forma de organização social baseada na propriedade
privada dos meios de produção, também denominada sociedade de classes.
[...] A pedagogia liberal sustenta a idéia de que a escola tem por função
preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as
aptidões individuais, por isso os indivíduos precisam aprender a se adaptar aos
valores e às normas vigentes na sociedade de classes através do desenvolvimento
da cultura individual. A ênfase no aspecto cultural esconde a realidade das
diferenças de classes, pois, embora difunda a idéia de igualdade de
oportunidades, não leva em conta a desigualdade de condições. Pg1-3
Tendência Liberal tradicional:
Papel da escola -
A atuação da escola consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para
assumir sua posição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, os
problemas sociais pertencem à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber
é o mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem. Conteúdo: As matérias de
estudo visam preparar o aluno para a vida, são determinadas pela sociedade e
ordenadas na legislação. Os conteúdos são separados da experiência do aluno e
das realidades sociais, valendo pelo valor intelectual, razão pela qual a
pedagogia tradicional é criticada como intelectualista e, às vezes, como
enciclopédica. Métodos: Métodos - Baseiam-se na exposição verbal da
matéria e/ou demonstração. Tanto a exposição quanto a análise são feitas pelo
professor, observados os seguintes passos: a) preparação do aluno b)
apresentação c) associação d) generalização e) aplicação. A ênfase nos
exercícios, na repetição de conceitos ou fórmulas na memorização visa
disciplinar a mente e formar hábitos. Relacionamento professor-aluno -
Predomina a autoridade do professor [...] Ele transmite o conteúdo na forma de
verdade a ser absorvida; em consequência, a disciplina imposta é o meio mais
eficaz para assegurar a atenção e o silêncio. Pressupostos de aprendizagem
- A ideia de que o ensino consiste na [...] capacidade de assimilação da
criança como idêntica à do adulto, apenas menos desenvolvida. Os programas,
então, devem ser dados numa progressão lógica, estabelecida pelo adulto, sem
levar em conta as características próprias de cada idade. A aprendizagem,
assim, é receptiva e mecânica, para o que se recorre frequentemente à coação.
[...] O esforço é, em geral, negativo (punição, notas baixas, apelos aos pais);
às vezes, é positivo (emulação, classificações). Manifestações na prática
escolar - A pedagogia liberal tradicional é viva e atuante em nossas
escolas. Na descrição apresentada aqui incluem-se as escolas religiosas ou
leigas que adotam uma orientação clássico-humanista ou uma orientação
humano-científica. Pg4
Tendência Liberal renovada ou progressivista:
Papel da escola -
A finalidade da escola é adequar as necessidades individuais ao meio social e,
para isso, ela deve se organizar de forma a retratar, o quanto possível, a
vida. [...] À escola cabe suprir as experiências que permitam ao aluno
educar-se, num processo ativo de construção e reconstrução do objeto, numa
interação entre estruturas cognitivas do indivíduo e estruturas do ambiente. Conteúdos
de ensino - os conteúdos de ensino são estabelecidos em função de
experiências que o sujeito vivencia frente a desafios cognitivos e situações
problemáticas. Trata-se de "aprender a aprender", ou seja, é mais
importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. Método
de ensino - A ideia de "aprender fazendo" está sempre presente.
Valorizam-se as tentativas experimentais, a pesquisa, a descoberta, o estudo do
meio natural e social, o método de solução de problemas. Na maioria delas, acentua-se
a importância do trabalho em grupo não apenas como técnica, mas como condição
básica do desenvolvimento mental. a) interesse pela experiência b) estimular
reflexão sobre o problema c) pesquisar a descoberta de soluções; d) soluções
provisórias com a ajuda discreta do professor; e) à prova com utilidade para
a vida. Relacionamento professor-aluno - o papel do professor é auxiliar
o desenvolvimento livre e espontâneo da criança; se intervém, é para dar forma
ao raciocínio dela. O aluno disciplinado é aquele que é solidário,
participante, respeitador das regras do grupo. Para garantia de harmonia é
indispensável um relacionamento positivo entre professores e alunos;
"vivência democrática" tal qual deve ser a vida em sociedade.
Pressupostos de aprendizagem - Aprender se torna uma atividade de
descoberta, é uma auto-aprendizagem, sendo o ambiente apenas o meio
estimulador. É retido o que se incorpora à atividade do aluno pela descoberta
pessoal; o que é incorporado passa a compor a estrutura cognitiva para ser
empregado em novas situações. A avaliação é fluida e tenta ser eficaz à medida
que os esforços e os êxitos são pronta e explicitamente reconhecidos pelo
professor. Manifestações na prática escolar - Os princípios da pedagogia
progressivista vêm sendo difundidos, em larga escala, nos cursos de
licenciatura, e muitos professores sofrem sua influência. Entretanto, sua
aplicação é reduzidíssima, não somente por falta de condições objetivas como
também porque se choca com uma prática pedagógica basicamente tradicional.
Pertencem, também, à tendência progressivista muitas das escolas denominadas
"experimentais", as "escolas comunitárias" e mais
remotamente (década de 60) a "escola secundária moderna", na versão
difundida por Lauro de Oliveira Lima. Pg 5 e 6.
Tendência Liberal Renovada Não-diretiva:
Papel da escola – ela
deve estar mais preocupada com os problemas psicológicos do que com os
pedagógicos ou sociais. Todo esforço está em estabelecer um clima favorável a
uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal ás
solicitações do ambiente. Rogers4 considera que o ensino é uma atividade
excessivamente valorizada; para ele os procedimentos didáticos, a competência
na matéria, as aulas, livros, tudo tem muito pouca importância, face ao
propósito de favorecer à pessoa um clima de autodesenvolvimento e realização
pessoal, o que implica estar bem consigo próprio e com seus semelhantes. O
resultado de uma boa educação é muito semelhante ao de uma boa terapia. Conteúdos
de ensino – a ênfase nos processos de desenvolvimento das relações e da
comunicação torna secundária a transmissão de conteúdos. Os processos de ensino
visam mais facilitar aos estudantes os meios para buscarem por si mesmos os
conhecimentos que, no entanto, são dispensáveis. Métodos de ensino - Quase
exclusivamente o esforço do professor em desenvolver um estilo próprio para
facilitar a aprendizagem dos alunos. Rogers explicita algumas das
características do professor "facilitador": aceitação da pessoa do
aluno, capacidade de ser confiável, receptivo e ter plena convicção na
capacidade de autodesenvolvimento do estudante. Sua função restringe-se a
ajudar o aluno a se organizar, utilizando técnicas de sensibilização onde os
sentimentos de cada um possam ser expostos, sem ameaças. Relacionamento
professor-aluno - propõe uma educação centrada no aluno, visando formar sua
personalidade através da vivência de experiências significativas que lhe
permitam desenvolver características inerentes à sua natureza. O professor é um
especialista em relações humanas, ao garantir o clima de relacionamento pessoal
e autêntico. "Ausentar-se" é a melhor forma de respeito e aceitação
plena do aluno. Toda intervenção é ameaçadora, inibidora da aprendizagem. Pressupostos
de aprendizagem - A motivação resulta do desejo de adequação pessoal na
busca da auto-realização; é, portanto um ato interno. O sujeito desenvolve o
sentimento de que é capaz de agir em termos de atingir suas metas pessoais,
isto é, desenvolve a valorização do "eu". A retenção se dá pela
relevância do aprendido em relação ao "eu", ou seja, o que não está
envolvido com o "eu" não é retido e nem transferido. Portanto, a
avaliação escolar perde inteiramente o sentido, privilegiando-se a
autoavaliação. Manifestações na prática escolar - Entre nós, o
inspirador da pedagogia não-diretiva é C. Rogers, na verdade mais psicólogo
clínico que educador. Suas ideias influenciam um número expressivo de
educadores e professores. Pg 6 e 7.
1.4 Tendência liberal
tecnicista
Papel da escola -
Num sistema social harmônico, orgânico e funcional, a escola funciona como
modeladora do comportamento humano, através de técnicas específicas. escola
atua, assim, no aperfeiçoamento da ordem social vigente (o sistema
capitalista), articulando-se diretamente com o sistema produtivo; para tanto,
emprega a ciência da mudança de comportamento, ou seja, a tecnologia
comportamental. Seu interesse imediato é o de produzir indivíduos
"competentes" para o mercado de trabalho, transmitindo, eficientemente,
informações precisas, objetivas e rápidas. Conteúdos de ensino - São as
informações, princípios científicos, leis etc. [...] O material instrucional
encontra-se sistematizado nos manuais, nos livros didáticos, nos módulos de
ensino, nos dispositivos audiovisuais etc. Métodos de ensino – [...] a
primeira tarefa do professor é modelar respostas apropriadas aos objetivos
instrucionais, a principal é conseguir o comportamento adequado pelo controle
do ensino; daí a importância da tecnologia educacional. A tecnologia educacional
é a "aplicação sistemática de princípios científicos comportamentais e
tecnológicos a problemas educacionais, em função de resultados efetivos,
utilizando uma metodologia e abordagem sistêmica abrangente". [...] O
essencial da tecnologia educacional é a programação por passos seqüenciais
empregada na instrução programada, nas técnicas de microensino, multimeios,
módulos etc. Relacionamento professor-aluno - O professor é apenas um
elo de ligação entre a verdade científica e o aluno, cabendo-lhe empregar o
sistema instrucional previsto. O aluno é um indivíduo responsivo, não participa
da elaboração do programa educacional [...]. Debates, discussões,
questionamentos são desnecessários, assim como pouco importam as relações
afetivas e pessoais dos sujeitos envolvidos no processo ensinoaprendizagem. Pressupostos
de aprendizagem – [...] o ensino é um processo de condicionamento através
do uso de reforçamento das respostas que se quer obter. Assim, os sistemas
instrucionais visam ao controle do comportamento individual face objetivos
preestabelecidos. Trata-se de um enfoque diretivo do ensino, centrado no
controle das condições que cercam o organismo que se comporta. O objetivo da
ciência pedagógica, a partir da psicologia, é o estudo científico do comportamento:
descobrir as leis naturais que presidem as reações físicas do organismo que
aprende, a fim de aumentar o controle das variáveis que o afetam. P. 7 e 8
2. Pedagogia progressista
[...] A pedagogia
progressista tem-se manifestado em três tendências: a libertadora, mais
conhecida como pedagogia de Paulo Freire; a libertária, que reúne os
defensores da autogestão pedagógica; a crítico-social dos conteúdos
que, diferentemente das anteriores, acentua a primazia dos conteúdos no seu
confronto com as realidades sociais. As versões libertadora e libertária têm em
comum o antiautoritarismo, a valorização da experiência vívida como base da
relação educativa e a idéia de autogestão pedagógica. Em função disso, dão mais
valor ao processo de aprendizagem grupal (participação em discussões,
assembléias, votações) do que aos conteúdos de ensino. Como decorrência, a
prática educativa somente faz sentido numa prática social junto ao povo, razão
pela qual preferem as modalidades de educação popular "não-formal".
2.1 Tendência progressista
libertadora
Papel da escola -
Não é próprio da pedagogia libertadora falar em ensino escolar, já que sua
marca é a atuação "não-formal". Ela questiona concretamente a
realidade das relações do homem com a natureza e com os outros homens, visando
a uma transformação - dai ser uma educação crítica10. Conteúdos de ensino
- Denominados “temas geradores", são extraídos da problematização da
prática de vida dos educandos. [...] O importante não é a transmissão de
conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma da relação com a
experiência vivida. [...]Métodos de ensino - "Para ser um ato de
conhecimento o processo de alfabetização de adultos demanda, entre educadores e
educandos, uma relação de autêntico diálogo; aquela em que os sujeitos do ato
de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a ser conhecido". Os
passos da aprendizagem - Codificação-decodificação, e problematização da
situação - permitirão aos educandos um esforço de compreensão do
"vivido", até chegar a um nível mais crítico de conhecimento e sua
realidade, sempre através da troca de experiência em torno da prática social.
Se nisso consiste o conteúdo do trabalho educativo, dispensam um programa
previamente estruturado, trabalhos escritos, aulas expositivas assim como
qualquer tipo de verificação direta da aprendizagem, formas essas próprias da
"educação bancária", portanto, domesticadoras. Entretanto admite-se a
avaliação da pratica vivenciada entre educador-educandos no processo de grupo
e, às vezes, a autoavaliação feita em termos dos compromissos assumidos com a
prática social.
Relacionamento
professor-aluno - No diálogo, como método básico, a relação é horizontal,
onde educador e educandos se posicionam como sujeitos do ato de conhecimento. O
critério de bom relacionamento é a "' total identificação com o povo, sem
o que a relação pedagógica perde consistência. Elimina-se, por pressuposto,
toda relação de autoridade, sob pena de esta inviabilizar o trabalho de
conscientização, de "aproximação de consciências". Pressupostos de
aprendizagem - A própria designação de "educação
problematizadora" como correlata de educação libertadora revela a força
motivadora da aprendizagem. A motivação se dá a partir da codificação de uma
situação-problema, da qual se toma distância para analisá-la criticamente.
"Esta análise envolve o exercício da abstração, através da qual procuramos
alcançar, por meio de representações da realidade concreta, a razão de ser dos
fatos".
Manifestações na prática
escolar - A pedagogia libertadora tem como inspirador e divulgador Paulo
Freire, que tem aplicado suas idéias pessoalmente em diversos países, primeiro
no Chile, depois na África. Entre nós, tem exercido uma influencia expressiva
nos movimentos populares e sindicatos e, praticamente, se confunde com a maior
parte das experiências do que se denomina "educação popular".
2.2 Tendência progressista
libertária
Papel da escola -
A pedagogia libertária espera que a escola exerça uma transformação na
personalidade dos alunos num sentido libertário e autogestionário. A escola
instituirá, com base na participação grupal, mecanismos institucionais de
mudança (assembléias, conselhos, eleições, reuniões, associações etc.), de tal
forma que o aluno, uma vez atuando nas instituições "externas", leve
para lá tudo o que aprendeu. Outra forma de atuação da pedagogia libertária,
correlata á primeira, é - aproveitando a margem de liberdade do sistema - criar
grupos de pessoas com princípios educativos autogestionários (associações,
grupos informais, escolas autogestionários). Há, portanto, um sentido
expressamente político, à medida que se afirma o indivíduo como produto do
social e que o desenvolvimento individual somente se realiza no coletivo. A
autogestão é, assim, o conteúdo e o método; resume tanto o objetivo pedagógico
quanto o político. Essa pedagogia, pretende ser uma forma de resistência contra
a burocracia como instrumento da ação dominadora do Estado. Conteúdos de
ensino - As matérias são colocadas à disposição do aluno, mas não são
exigidas. São um instrumento a mais, porque importante é o conhecimento que
resulta das experiências vividas pelo grupo, especialmente a vivência de
mecanismos de participação crítica. "Conhecimento" aqui não é a
investigação cognitiva do real, para extrair dele um sistema de representações
mentais, mas a descoberta de respostas as necessidades e às exigências da vida
social. Método de ensino - É na vivência grupal, na forma de autogestão,
que os alunos buscarão encontrar as bases mais satisfatórias de sua própria
"instituição", graças à sua própria iniciativa e sem qualquer forma
de poder. Trata-se de "colocar nas mãos dos alunos tudo o que for
possível: o conjunto da vida, as atividades e a organização do trabalho no
interior da escola". Os alunos têm liberdade de trabalhar ou não, ficando
o interesse pedagógico na dependência de suas necessidades ou das do grupo.
Relação professor-aluno - A pedagogia institucional visa "em primeiro
lugar, transformar a relação professor-aluno no sentido da não-diretividade,
isto é, considerar desde o início a ineficácia e a nocividade de todos os
métodos à base de obrigações e ameaças". Embora professor e aluno sejam
desiguais e diferentes, nada impede que o professor se ponha a serviço do
aluno, sem impor suas concepções e idéias, sem transformar o aluno em
“objeto". O professor é um orientador e um catalisador, ele se mistura ao
grupo para uma reflexão em comum. Pressupostos de aprendizagem - As
formas burocráticas das instituições existentes, por seu traço de
impessoalidade, comprometem o crescimento pessoal. A ênfase na aprendizagem
informal, via grupo, e a negação de toda forma de repressão visam favorecer o
desenvolvimento de pessoas mais livres. No mais, ao professor cabe a função de
"conselheiro" e, outras vezes, de instrutor-monitor à disposição do
grupo. Em nenhum momento esses papéis do professor se confundem com o de
"modelo", pois a pedagogia libertária recusa qualquer forma de poder
ou autoridade.A motivação está, portanto, no interesse em crescer dentro da vivência
grupal, pois supõe-se que o grupo devolva a cada um de seus membros a
satisfação de suas aspirações e necessidades. P. 9-13.
2.3 Tendência progressista
“crítico social dos conteúdos”
Papel da escola -
A difusão de conteúdos é a tarefa primordial. Não conteúdos abstratos, mas
vivos, concretos e, portanto, indissociáveis das realidades sociais. A
valorização da escola como instrumento de apropriação do saber é o melhor
serviço que se presta aos interesses populares, já que a própria escola pode
contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática. [...] Em
síntese, a atuação da escola consiste na preparação do aluno para, o mundo
adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio da
aquisição de conteúdos e da socialização, para uma participação organizada e
ativa na democratização da sociedade. Conteúdos de ensino - São os
conteúdos culturais universais que se constituíram em domínios de conhecimento
relativamente autônomos, incorporados pela humanidade, mas permanentemente reavaliados
face às realidades sociais. [...] Não basta que os conteúdos sejam apenas
ensinados, ainda que bem ensinados, é preciso que se liguem, de forma
indissociável, à sua significação humana e social. Métodos de ensino - A
questão dos métodos se subordina à dos conteúdos: se o objetivo é privilegiar
a aquisição do saber, e de um saber vinculado às realidades sociais, é preciso
que os métodos favoreçam a correspondência dos conteúdos com os interesses dos
alunos, e que estes possam reconhecer nos conteúdos o auxílio ao seu esforço
de compreensão da realidade (prática social). [...] Em outras palavras, uma
aula começa pela constatação da prática real, havendo, em seguida, a
consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos do conteúdo proposto,
na forma de um confronto entre a experiência e a explicação do professor. Vale
dizer: vai-se da ação à compreensão e da compreensão à ação, até a síntese, o
que não é outra coisa senão a unidade entre a teoria e a prática. Relação
professor-aluno – [...] O papel do adulto é insubstituível, mas acentua-se
também a participação do aluno no processo. Ou seja, o aluno, com sua
experiência imediata num contexto cultural, participa na busca da verdade, ao
confrontá-la com os conteúdos e modelos expressos pelo professor. Mas esse
esforço do professor em orientar, em abrir perspectivas a partir dos
conteúdos, implica um envolvimento com o estilo de vida dos alunos, tendo
consciência inclusive dos contrastes entre sua própria cultura e a do aluno.
Não se contentará, entretanto, em satisfazer apenas as necessidades e
carências; buscará despertar outras necessidades, acelerar e disciplinar os
métodos de estudo, exigir o esforço do aluno, propor conteúdos e modelos
compatíveis com suas experiências vividas, para que o aluno se mobilize para
uma participação ativa. Pressupostos de aprendizagem - Por um esforço
próprio, o aluno se reconhece nos conteúdos e modelos sociais apresentados pelo
professor; assim, pode ampliar sua própria experiência.O conhecimento novo se
apóia numa estrutura cognitiva já existente, ou o professor provê a estrutura
de que o aluno ainda não dispõe. O grau de envolvimento na aprendizagem dependa
tanto da prontidão e disposição do aluno, quanto do professor e do contexto da
sala de aula. [...] O professor precisa saber (compreender) o que os alunos
dizem ou fazem, o aluno precisa compreender o que o professor procura
dizer-lhes. A transferência da aprendizagem se dá a partir do momento da síntese, isto é, quando o aluno supera sua
visão parcial e confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora. [...]
Resulta com clareza que o trabalho escolar precisa ser avaliado, não como
julgamento definitivo e dogmático do professor, mas como uma comprovação para
o aluno de seu progresso em direção a noções mais sistematizadas. Manifestações
na prática escolar - O esforço de elaboração de uma pedagogia “dos
conteúdos” está em propor modelos de
ensino voltados para a interação conteúdos-realidades sociais; portanto,
visando avançar em termos de uma articulação do político e do pedagógico,
aquele como extensão deste, ou seja, a educação "a serviço da
transformação das relações de produção". Ainda que a curto prazo se espere
do professor maior conhecimento dos conteúdos de sua matéria e o domínio de formas
de transmissão, a fim de garantir maior competência técnica, sua contribuição
"será tanto mais eficaz quanto mais seja capaz de compreender os vínculos
de sua prática com a prática social global", tendo em vista [...] "a
democratização da sociedade brasileira, o atendimento aos interesses das
camadas populares, a transformação estrutural da sociedade brasileira"14.
[...] Por fim, situar o
ensino centrado no professor e o ensino centrado no aluno em extremos opostos é
quase negar a relação pedagógica porque não há um aluno, ou grupo de alunos,
aprendendo sozinho, nem um professor ensinando para as paredes. Há um
confronto do aluno entre sua cultura e a herança cultural da humanidade, entre
seu modo de viver e os modelos sociais desejáveis para um projeto novo de
sociedade. E há um professor que intervém, não para se opor aos desejos e
necessidades ou a liberdade e autonomia do aluno, mas para ajudá-lo a
ultrapassar suas necessidades e criar outras, para ganhar autonomia, para
ajudá-lo no seu esforço de distinguir a verdade do erro, para ajudá-lo a
compreender as realidades sociais e sua própria experiência. P 14 – 17.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Fichamento 1
VIANA, Juvany. Ser professor é gostar do outro. In: PRETTO,
Nelson De Luca; SERPA, Felippe. UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. Expressões de sabedoria: educação, vida e saberes : Mãe Stella
de Oxóssi, Juvany Viana. Salvador
(BA): EDUFBA, 2002. 95, [96-99]. Cap. 4, p. 73-95.
1)
“...
Eu comecei a estudar com sete anos de idade. Na minha localidade, não existia
colégio...” p.73.
2)
“...
Meu pai, que queria que os filhos dele aprendessem, me trouxe para Salvador...”
p.73
3)
“Morei
em São Caetano, estudei no Cônsul até a sétima série. Daí, a minha mãe adoeceu,
e eu tive que vir embora. Faltando um mês pra fazer um ano que meu pai morreu,
minha mãe também morreu.” p.74.
4)
“...
eu sou a mais velha, e meus irmãos estavam todos pequenos. Criei todos eles.”
P.74.
5)
“Não
tinha mais como sair pra estudar, porque já tinha filho e marido [...] Fui
trabalhar na roça, e o tempo foi passando”. P.74
6)
“Quando
eu estava com vinte e dois anos de idade, em 79, época de eleição, chegou lá no
Iguape um rapaz que era vice-prefeito de Cachoeira, Seu Geraldo Simões. Nessa
época, eu já tinha quatro anos ensinando como voluntária. Juntei duas mesas com
aqueles bancos de tira e queria que aquelas crianças aprendessem, porque o meu
instinto era ter um colégio no local.” P.74
7)
“[...]
Geraldo [...] disse que, se ganhasse a eleição, iria me ajudar. Ele ganhou
[...] chegou lá em casa e disse: "Negona, agora é sua vez!". [...] e
disse que eu já podia considerar que eu estava trabalhando.” P.74
8)
‘Matriculei
sessenta meninos. Não tinha lugar pra eles sentarem [...] Fiz uma campanha para
os pais: "Quero um banco de cada um!" E muitos fizeram bancos,
arrumaram tábuas [...] p.74
9)
“Meu
maior ideal era ter um prédio no local. Eu sonhava com essa escola! [...] mas
eu ensinei o tempo todo dentro do meu salão” p.75
10) “Pra encurtar mais essa conversa, eu
já ensinei até em banco de pé de coco.” P.75
11) “Quando eu soube que o colégio tinha
direito a merenda, eu comecei a buscar por isso. Hoje, eu é quem faço a merenda
no meu colégio [...] porque eu quero que tenha aula.” P.75
12) “Meu maior sonho foi conseguir
ensinar e... Consegui! [...] Hoje eu já me sinto feliz! [...] Sempre brinquei
de roda com eles, sempre pulei corda, mas eles sabem que têm horário pra tudo, minha
maior alegria é ter conseguido isso.” P.75
13) “Eu não terminei de estudar.
Professora leiga não tem o mesmo salário, mas a minha prioridade é que eu estou
fazendo o meu trabalho [...] posso até não estar fazendo bem, porque eu não
tenho o linguajar de faculdade, mas consigo labutar com eles.” P.75
14) “ Às vezes, eu sou meio rígida, mas a
maior parte deles, quando chega perto de mim, diz que eu sou doce.[...]” p.76
15) “Agora eu vou contar a história do
colégio. O prefeito começou a fazer [...] Mandou a metade do material. Eu [...]
inventei de fazer uma casa grande pra mim lá na roça [...] comprei cinco mil
blocos, não sei quantas caçambas de brita, comprei ferro e depois [...] mudei
de ideia [...] e fui negociar com o prefeito.[...] Até hoje tem dívida dele lá [...]Usou
os meus blocos [...] o importante é que fez o prédio. P.77
16) “[...] eu tô ensinando nele, na maior alegria [...]
tudo o que tem na cozinha é meu, mas eu ainda tô buscando a merenda.” P.77
17) “Felippe
- Juvany, eu tenho a informação de que
você tem a sua filha... Como é que você divide o trabalho com ela na escola? ” P.
78
18) “No ano passado, a minha menina ensinou a
alfabetização”, pois, “[...] eu fiz o supletivo em Feira e agora tô tomando o
curso Pró-Formação à distância. [...] esse ano eu não dei pelo seguinte: [...]
alfabetização [...] eu sempre gostei e a minha filha não [...] Ela tem jeito de
professora de terceira e quarta série, ela já se formou [...]” P.79
19) “[...] eu, pra dar aula de Matemática... pego livro,
leio e releio [...] estudar no candeeiro é difícil [...] como professora leiga...
eu não quero que falem mal de mim [...]” p.78
20) “ Eu já ensinei três vezes no dia: [...]primeira e
segunda de manhã, terceira e quarta de tarde, e de noite [...] o Mobral”. P.79
21) “Felippe
- A gente sabe que você, como professora,
usa muito as linguagens da arte para o desenvolvimento da criança. Você poderia
falar um pouco sobre isso?” P.79
22) “Juvany
- [...] eu coloquei na quarta série, na
terceira [...] aula de dança, [...] capoeira. [...] É legal! Eles estão
empolgados! Agora, eu comprei um rádio. Lá não tem energia. Só brincar de roda não
dá! Pro rádio são seis baterias!!' Aí meu marido diz: "Pronto' Acabou o
dinheiro do mês!". Minha menina diz que tem que ir pedir na prefeitura,
mas eu ainda não fiz o pedido.” P.79
23) “Felippe
-
Nesses vinte anos desse trabalho com as crianças, sem escola, porque a escola
era a sua casa, né? Só de dois anos pra cá que você tem essa escola. Você usava
muitas brincadeiras e trabalhos? Conte um pouco sobre isso.” P.79
24) “Juvany
- Os alunos brincavam muito. Época de
folclore? Eu me vestia de baiana. [...] vem o dia do índio [...] peço pra
dramatizarem [...] e eles ficam empolgados.” P.80
25) “Jorge
- [...] Eu fiquei curioso em relação ao
material de trabalho: papel, lápis... de onde é que vem?”
26) “Juvany
- [...] agora mesmo eu recebi os
materiais, mas tem época que é o maior sacrifício. Às vezes, eu compro com meu
dinheiro mesmo. [...] Mimeógrafo, por exemplo, eu sonhava com um. [...] minha
irmã levou uma pessoa no Iguape, que [...] ficou hospedada lá [...] foi lá em
casa, e me perguntou o que é que eu queria de presente. [...] Ela, assim que
chegou em Salvador, comprou [...] e deu a minha irmã pra levar. P.81
27) “Artur
- A senhora sempre fala da questão de ser
professora leiga como se fosse uma deficiência. Eu vejo que é justamente o
contrário, é até uma vantagem. Na escola, hoje, podem ter muitos técnicos pra
ensinar as letras e os números, mas eles não conseguem fazer com que as pessoas
sejam gente. Eu acho que esse é o grande desafio da educação. A senhora
preferiu, frente ao abandono que existia, fazer história. Isso é de sobra e não
de falta.” P.83
28) “Juvany
- Mas [...] é você que tá falando isso aí
agora. As outras pessoas não pensam igual, justamente por isso, as
características são diferentes, o jeito de pensar, o jeito de olhar, de
imaginar. Você acha que é ótimo, mas pessoas atrás dizem que não[...]” P.83
29) “Carlos Alberto
- Eu vejo muito a indiferença do aluno
frente à escola e ao professor. A senhora chama os seus alunos pelo nome, tem
um vínculo muito, forte e isso é de um valor e de uma sabedoria imensuráveis,
mais do que as letras e os números” P. 83
30) “Juvany
- [...] Eu já tô acostumada a conversar
com eles. [...] além dos meus dez filhos, eu crio mais quatro. As crianças, se
pudessem, chegavam lá em casa e não queriam ir mais embora. [...] Eu peguei uma
com um mês e vai fazer vinte e três anos agora [...] outra com um ano e seis
meses e já tá com dezessete.[...] Estudaram todos comigo. Peguei um com seis
anos de idade [...] já tá com vinte anos. [...] me chama de mãe e chama a mãe
dele de Vera [...]” p.84
31) “Alessandra
- Eu queria perguntar ainda sobre essa
questão do professor leigo, como é que entra o Pró-Formação na sua vida?” p.85
32) “Juvany
- [...]De seis em seis meses, vamos pra Santo
Amaro, ficamos lá dez dias, levamos os módulos pra casa e, de quinze em quinze
dias, tem reunião em Cachoeira. [...]É difícil, eu tô me batendo com Matemática
[...] mas pra mim é uma satisfação, porque, eu vou conseguir [...] ser uma
professora!” P.85
23) “Felippe
- Você acha que quando você acabar esse
Pró-Formação, a sua prática na escola vai mudar significativamente? Você vai
ser outra, ou você vai continuar com esse mesmo processo?” P.86
33) “Juvany
- [...] Eu já trabalhava assim com minhas
crianças, agora com incentivação tá
sendo bem melhor.[...] Eu tenho que pegar o dicionário pra confirmar se é assim
mesmo que escreve. O Pró-Formação tá me ajudando bastante, porque eu tô conseguindo
aprender muito mais. O jeito que eu fazia, com a explicação, hoje eu já
modifico pra melhor.” P.86
24) “Nelson
- A senhora tá sempre dizendo que o
Pró-Formação é à distância. Isso funciona? Será que dava pra fazer essas coisas
também com as crianças à distância?” P.86
34) “Juvany
- [...] eu já tô com a mente mais madura,
[...] Pra eles é bem mais difícil. Se pra mim já tá sendo difícil, então... Como
é que, de longe, eu vou passar brincadeiras?” P.87
35) “[...] Quando chega sem querer estudar, eu incentivo e
tento botar na mente deles que, sem estudo, não se consegue nada.” P.88
36) “Eu paro pra escutar eles, depois eu continuo. Faço
perguntas, depois eles respondem, aí eu continuo [...] Eu sempre me preocupo
com isso, para eles aprenderem, se desenvolverem e serem comunicativos.” P.90
37) “Nelson
- A senhora hoje está dando uma aula em
uma escola que forma professor. O que é ser um bom professor? Aqui todo mundo
ou é ou será professor. Nessa sua aula de hoje, como a senhora diria o que é
ser um bom professor?” p.90
38) “Juvany
- Eu acho que ser um bom professor é ser
um bom amigo, ter uma boa compreensão, saber amar, ter uma frequência de
carinho. [...] eu me considero uma mãe dos meus alunos a partir do momento em
que eles chegam na sala. Ser um bom professor é ser compreensivo, é saber amar.
[...] nunca tive diferença com os alunos, todos pra mim são iguais[...]” P.90
39) “Bruno
- [...] A gente tem um trabalho em São
Francisco do Paraguaçu. Uma das queixas da professora é que as crianças chegam
muito violentas na escola, mordendo professor. Eu gostaria de saber de você: na
sua sala existe esse tipo de coisa? P.91
40) “Juvany
- Pra dizer a verdade, em vinte e seis
anos que eu ensino, eu nunca tive um aluno que me ofendesse. Na hora de falar
grosso com eles, eu falava e nunca tive nenhum que eu maltratasse e nem que me
maltratasse [...]” p.91
41) “[...] Eu digo às minhas filhas que a gente tem que
ensinar por amor. Tudo que a gente faz na vida tem que ser com amor [...]”p.93
42) [...] qualquer que seja o nível do processo educativo
[...] a atividade educativa é essencialmente uma relação entre pessoas! [...] A
grande aula que Juvany deu aqui é mostrar que nas condições de trabalho que ela
tem, ela encara o processo educativo como uma relação entre pessoas e, [...] entre
pessoas deve estar o amor.” P.94
quinta-feira, 22 de março de 2012
Fichamento 2
LUCKESI, Cipriano C. “O papel da didática
na formação do Educador”. In: CANDAU, Vera Maria “et alii”. “A Didática
em Questão”. Petrópolis/RJ. Ed. Vozes, 1996. P. 23-29
1) “...’ o papel da didática’ – destina-se a atingir um fim – ‘a formação do educador’...” (p. 23)
2) “Todo ser humano está envolvido na prática histórica transformadora...” (p. 24)
3) “Todos somos educadores e educandos...” (p. 24)
4)
“... educador é o profissional que se dedica a atividade de,
intencionalmente, criar condições de desenvolvimento desejáveis, seja do
ponto de vista do indivíduo, seja do ponto de vista do grupamento
humano...” (p. 24)
5) “[...] o autêntico educador [...] constrói [...] o projeto histórico de desenvolvimento do povo...” (p. 24)
6)
“[...] não pé a educação, por si, que cria o modelo social, mas ela
atua dentro de um modelo social existente ou por existir.” (p. 25)
7) “[...] esse projeto histórico se traduz num projeto pedagógico e em um plano de ação.” (p. 25)
8)
“Em primeiro lugar, a ação pedagógica não poderá ser um ‘quefazer’
neutral, mas um ‘quefazer’ ideologicamente definido.” (p. 25)
9)
“A segunda consequência [...] é que o educador não poderá exercer suas
atividades isento de explicitas opções teóricas: uma opção
filosófico-politica pela opressão ou pela libertação; [...] pela
repetição ou pela criação e modos de compreender o mundo; uma opção,
coerente com as anteriores, pelos fundamentos e práticas e uma escolha
pelos meios de processar a práxis educativa, que não poderá estar em
desacordo com as opções anteriores [...]” (p. 25)
10) “A terceira
consequência é que a prática educacional não poderá [...] uma prática
burocrática [...] Ela tem que ser uma ação comprometida ideológica e
efetivamente [...]” (p. 26)
11) “Não se pode fazer educação sem ‘paixão’” (p. 26)
12)
“Formar o educador [...] seria criar condições para que o sujeito se
prepare filosófica, cientifica, técnica e afetivamente para o tipo de
ação que vai exercer. [...]” (p. 26)
13) “O educador nunca estará definitivamente ‘pronto’, formado, [...], sua maturação se faz no dia-a-dia [...]” (p. 26)
14)
“[...] O ideal seria que educador e educando, conjuntamente,
conseguissem, atuando praticamente no e com o mundo e meditando sobre
essa prática, desenvolver tanto conhecimento sobre a realidade com
atitude crítica frente a si mesma. [...]” (p. 26)
15) “Formar o
educador [...] não deverá ser uma imposição autoritária e sim um modo de
auxiliar o sujeito a adquirir uma atitude crítica frente ao mundo
[...]” (p. 26)
16) “[...] didática [...] significa um modo de
facilitar o ensino e aprendizagens de modos de conduta desejáveis [...]
transmissão e conteúdos morais desejáveis [...]” (p. 27)
17)
“[...] A educação institucionalizada que compõe a nossa circunstancia
histórica está [...] destinada à transmissão de [...] conteúdos [...]
subjacentemente ideologizantes. Comprovando isso, estão ai os livros
didáticos que, sob a capa de “objetividade cientifica”, transitem a pura
ideologia dominante.” (p. 27)
18) “O educador, segundo atual
concepção, deve saber tratar tecnicamente os mecanismos pelos quais um
individuo [...] possa adquirir determinados tipos de conduta com maior
facilidade. [...]” (p. 27)
19) “[...] A didática passou a ser uma
hipertrofia dos modos de fazer da discussão do “como” se chega a um
determinado fim.” (p. 27)
20) “[...] sabemos que a psicologia da
aprendizagem é muito pouco para fundamentar uma prática educacional
adequada. É um reducionismo que deve ser evitado.” (p. 28)
21)
“Essa didática – hipertrofia de técnicas, esfacelamento da relação
teoria/prática, redução dos fundamentos da prática educacional – [...]
tem muito pequeno papel na formação do educador comprometido com um
projeto pedagógico, tradutor e executor de um projeto histórico de
desenvolvimento do povo.” (p. 29)
22) “[...] Este esfacelamento netre teoria e prática é interessante aos detentores do poder. [...]” (p. 29)
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